domingo, 17 de dezembro de 2017

Esquete: Arte Contemporânea?

Em uma famosa galeria de arte da cidade, um artista expõe sua mais famosa obra: Uma batata inglesa cravejada de pregos. Todos bem vestidos, garçons servindo champanhe e então: 

Visitante: Que "peça" bonita! foi o senhor que fez né?
Expositor: Foi. Demorei dois anos para terminar esta obra e me sinto satisfeito com mais este trabalho     realizado.
V: O que você pretende com esse trabalho realizado?O que levou a fazê-lo? Sei que não foi uma simples     paixão ou uma lembrança vaga de antigamente.
E: Não, Não! Eu me inspirei na vida, no cotidiano, no nosso dia-a-dia. O espírito da vida é amplo e acho     que o artista deve retratar o seu momento, o momento das coisas.
Crítico: Impressionante. A cada exposição que eu vou só encontro porcaria. E o que acho mais engraçado é ver a cara de soberba, intelectualidade e arrogância desses... artistas falcatruas.
E: Já sei, deve ser mais um desses críticos de jornalzinho de terceira categoria, que mal sabe escrever.         Quanto mais analisar uma obra complexa e introspectiva como essa.
C: Há muito tempo não vejo uma arte séria, que ao menos tenha estética. A crítica social, a crítica ao           sistema que nos aliena foi relegada por esses pilantras. Essa arte dita pós-moderna não passa de um             nada. Não significa nada e nem pretende significar. É a total desestetização  e descaracterização da arte.       E você o que acha disso?
V: Bem, eu....
E: Anda, fala logo!
C: Desembucha homem, fala logo o que você acha dessa joça.
Expositor e Crítico: Fala!
V: Já chega, eu vou falar. Eu vim aqui para essa exposição porque minha esposa faz aniversário amanhã e eu preciso comprar algo que seja requintado e fino. E como ela gosta dessas coisas eu vim para cá. 
C: Ah! Só podia ser isto. Quem é maluco de achar isso arte?
E: Pois saiba você que com este trabalho eu ganhei o prêmio Salvador Dali de 1998. Que todos os críticos aclamaram minha obra, alegando que ela representa perfeitamente o nosso cotidiano e que milhões de pessoas se identificaram com ela. Assim, fique sabendo você, seu crítico de bosta, que eu faço arte para o mundo e não para um grupinho de pseudo-intelectuais.
C: E desde quando copiar a realidade é arte? Desde quando reproduzir o real é arte? Onde está  a subjetividade do artista? Onde está sua criatividade? Isso é mais uma merda que banaliza o real. E digo mais... Essa arte pós-moderna é um reflexo da cultura de massas, do consumismo, fruto do atual processo de globalização. Que não se preocupa mais com o significado. Só se preocupa com signos, imagens. O que vale é o imediato e esse imediato, como sabemos, é descartável e facilmente esquecido. O capitalismo não joga para perder e sua obra é uma mera mercadoria. 
V: Eu pensei que....
Expositor  e Crítico: Cala a boca!
E: Você é insensível, não é capaz de entender uma obra tão complexa como essa. Seu negócio é falar mal do capitalismo. Que o capitalismo é isso, que o capitalismo é aquilo. Ora você não é capaz de perceber o sentimento do artista, da obra, do trabalho que tive para fazê-la. Além do mais, arte não pode ser definida. Cada um vê a obra de acordo com o que sente. De acordo com aquilo que o traz a realidade. E cá entre nós. Isso eu faço muito bem.
Visitante: Agora quem fala sou eu. Podem abaixar as orelhinhas que agora vocês irão me ouvir. Vocês são dois neuróticos narcisistas...
C: Mas, eu...
V: Cala  a boca! Já disse que quando um burro fala, os outros abaixam as orelhas. Vocês são dois egoístas que vivem em um mundinho pequeno burguês. Que nunca subiram um morro para conhecer a realidade da favela. Pobre vocês só vêem no Jornal Nacional e mesmo assim só quando um barraco desaba ou quando o morro está em guerra. Um faz uma arte que só quem tem grana pode adquirir e o outro parece mais um comunista de botequim, que grita palavras de ordem para meia dúzia de bêbados e que nunca fez nada prático para ajudar a comunidade.Os verdadeiros artistas são eles. Esses são os artistas da fome. Que dão nó em pingo d´água para sobreviver. São criativos em sua existência e são os únicos que não deixam nossa cultura morrer. Vocês são acomodados, já sabem o que vai ser do dia de amanhã. 
Expositor: Um momento, eu gostaria de...
V: Um momento é o caralho! Cala  a boca e senta aí. Como vocês acham que vão educar meus filhos? Com essa conversa fiada? E tem mais... pobre não vai a museu, nem a exposição de merda nenhuma. Então me dá logo esse objeto aí e me diz quanto é.
C: Você tem certeza que vai comprar isto?
V: Isso não é uma mercadoria? Pois então.. Se eu não comprar essa mercadoria fico mal com a patroa em casa.
E: Tá certo! Não estou preocupado em quem vai comprar minha obra. Afinal de contas, mil dólares são mil doláres. Ah! Já ia me esquecer. Quer que embrulhe para presente?
V: Por favor!
Expositor, crítico e visitante: E VOCÊS? O QUE ACHAM DISSO?


Guga Ribeiro.  

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