quinta-feira, 23 de julho de 2020

MARIO QUINTANA



Jornal do Povo - Mário Quintana / O anjo poeta



De Mário Quintana | Poesias, frases e textos

XEQUE-MATE


     Há muitos anos o ser humano vem tentando compreender o significado da morte e , principalmente, criando teorias e discursos a despeito deste tema tão obscuro para muitas pessoas. Tudo tem um fim e um começo. Até o sol, nosso mais poderoso astro, irá sucumbir ao tempo e deixará de existir. Quando começamos a assitir um filme, ficamos impacientes para chegar ao final e saber como tudo terminou. 
       Ingmar Bergman, no filme “O Sétimo Selo”, uma de suas principais obras primas, narra a história de um personagem que joga xadrez com a morte. Ele sabe que é uma partida vencida. Sabe que jamais irá vencer esse jogo. No entanto, ele irá lutar, fazendo as jogadas mais improváveis e desafiará a morte, ganhando um tempo necessário para viver aquilo que ele ainda não viveu e que gostaria muito de viver. 
        Assim somos todos nós. Como no filme deste renomado cineasta sueco, a morte joga conosco todos os dias. Do momento em que nos levantamos da cama até o momento de dormir. Desta forma, o cerne da questão passa a ser o que nós fazemos nesse intervalo. Como jogamos com a morte. De que forma nossa existência é encarada e que legado iremos deixar depois que as luzes se apagarem.
      Não é a cartola, o terno ou a bengala utilizada por Chaplin que ficarão na história. Não é o montante de riqueza acumulado por este que será lembrado. A genialidade e superação de um ser humano jamais será medida por seu poder econômico. É justamente aquele personagem pobre, mal trapilho, extremamente engraçado e sensível que ficou eternizado nos corações e mentes dos homens. De alguma forma Carlitos entrou no coração das pessoas, pelo simples fato destas se projetarem no seu lugar. Essa emoção, esse cair de lágrima no canto do olho, afasta a gente do lugar comum, das preocupações do dia-a-dia e nos alça ao caminho da eternidade.
       Em outras palavras, o que procuro dizer é que nossas lembranças estão totalmente associadas ao afeto que recebemos, ao amor que por nós é recebido e doado. Por isso esse grande temor da morte. O temor de deixarmos o amor na terra. O temor de deixar as pessoas que amamos e que nos fazem feliz. O temor de não vermos mais aqueles que fizeram parte de nossa existência e nos ensinaram o motivo de estar aqui. Deixamos o amor nos corações dos que ficaram. Não levamos absolutamente nada. Até nosso corpo, esse mesmo que fazemos de vitrine, como que uma roupa no manequim de uma loja, não será levado. A vida deve ser o amor em movimento. Este mesmo amor que nos afasta da morte e que nos torna eternos.


Gustavo Ribeiro Alves



Max von Sydow, ator de 'O Sétimo Selo' e 'O Exorcista', morre aos ...

sábado, 18 de julho de 2020

ELAS AMAM FIO DENTAL

         A mudança de comportamento no universo feminino nos últimos anos vem suscitando diversos tipos de provocações  e debates. Devemos compreender que a construção dos valores morais no país está diretamente relacionada  à um legado histórico patriarcal. Assim, as relações de poder bem como as relações econômicas eram dominadas, quase que exclusivamente, por indivíduos do sexo masculino.  
         Por conseguinte, foi desenvolvida  a concepção de que o homem, chefe de família, deveria suprir todas as necessidades financeiras do lar, enquanto  a mulher, dona de casa, deveria suprir todo o restante. Em outras palavras, tratava-se de uma clara divisão sexista de trabalho, pautada na submissão da mulher diante daquele que detinha o poder econômico. Grosso modo, foi criada uma relação de dependência que tornou  a mulher prisioneira em sua própria casa. 
         Sob  a ótica da lógica capitalista, podemos visualizar uma perspectiva para  a compreensão na mudança de comportamento feminino nas últimas décadas. A necessidade da mulher como força de trabalho, capaz de gerar lucro e de consumir, ficou evidente no tocante ao desenvolvimento do sistema econômico vigente. Assim, notadamente após  a década de 70, observamos um incremento significativo da mão de obra feminina no mercado de trabalho. Mas qual a relação do aumento do número de trabalhadoras formais com a mudança de comportamento das mulheres nos últimos anos? 
          Considerando que a dependência econômica da mulher em relação ao homem sempre foi o principal obstáculo para sua emancipação, podemos afirmar que  a partir do momento em que  a mulher passa  a ter uma fonte de renda, não se vê mais obrigada  a aceitar discursos  e atitudes de cunho misógino, machista  e/ou sexista. Com  a independência financeira verificou-se uma transformação nas relações de poder entre os gêneros. O poder decisório, desde  a escolha do lugar para uma viagem até  a gestão financeira da casa, incorpora, em toda  a sua essência, a escolha feminina. 
           A libertação sexual da mulher acompanhou  e evoluiu consoante  a sua independência econômica. Escolher quando, com quem  e onde fazer sexo, passou a ser uma realidade para o público feminino. O rompimento dos valores morais e dos dogmas patriarcais, permitiu  a mulher conhecer o prazer, se descobrir e, assim como os homens, saber distinguir muito bem sexo de amor. Elas querem relaxar um pouco debaixo do sol, com seus biquínis fios dentais, depois de uma semana dura de trabalho.  
           Em contraponto a essa onda de conservadorismo, o processo de emancipação feminina não vai cessar. A mulher protagoniza o desenvolvimento da economia mundial, destacando-se cada vez mais nos seus diversos setores  e segmentos. Eficiência, produtividade  e competência empurram todo o universo sexista para o precipício, fazendo surgir um novo ar, um ar com perfume de mulher. 



Gustavo Ribeiro Alves


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quarta-feira, 15 de julho de 2020

SOB O SOL DE WUHAN

        Em 1988, aos nove anos de idade, o Aedes Aegyptis, principal vetor para  a transmissão da Dengue, me acertou em cheio. Muito provavelmente deve ter me picado durante o intervalo de alguma partida de futebol, enquanto brincava de pique esconde ou quando soltava pipa nas ruas da periferia de minha infância. 
        À época, não se sabia ao certo as consequências desta doença. O que se sabia era de que se tratava de algo que "derrubava" a pessoa, como se um caminhão a tivessse atropelado. A Dengue foi, literalmente, uma febre no verão de 1988. Os carros de fumacê passavam nas ruas, impregnando-as daquele cheiro amargo. Os agentes da extinta SUCAM (Superintendência de Campanhas de Saùde Pública) fiscalizavam as casas, espalhando seus saquinhos de granulado branco em quase todos os cômodos.
         Durante os anos que se sucederam, após o caos da epidemia, o Estado procurou conter o avanço no número de contágios, dando ênfase na profilaxia como tentativa de solução, fato este não comprovado pelas estatísticas. Passamos  a ter de conviver com aquele caricato pernilongo negro de listras brancas nas patas, em nossos lares.
           Em contraponto àquela epidemia, vimos surgir este ano, um novo vírus que alterou profundamente  a organização da vida humana. O Coronavírus ou Covid-19, como alguns preferem chamar, emigrou da cidade de Wuhan na China , para centenas de países no mundo. Imerso  a uma histeria generalizada, tendo como pano de fundo discussões de cunho político e ideológico, essa doença vem contaminando diversas pessoas e, infelizmente, vitimando milhares.  
            Assim como o surto da dengue no ano de 1988 passou, o surto de Covid-19 vai passar. Assim como durante o surto da Dengue muitas pessoas morreram, o surto do novo Coronavírus também tem deixado muitas baixas. Assim como, mesmo após o surto,  a Dengue continua  a existir, esta nova moléstia também vai continuar a existir. É mais uma doença para o rol deste mundo doente. 
              Com ou sem vacina, com ou sem máscara, com ou sem camisinha, a vida na terra vai continuar. O homem continuará com seu egoismo  e com sua ganância. O sol irá continuar brilhando todos os dias, para todos os seres do planeta. E quando chegar  a hora de voltarmos  a ser apenas átomos, diferente dos vírus, restará apenas o amor, esse mesmo que nos contamina  e por nós é contaminado. 


        
           Gustavo Ribeiro Alves
            

sábado, 11 de julho de 2020

SISTEMA

Os automóveis passam e os viadutos ficam.
Os moradores mudam e os edifícios ficam.
O ser humano morre e a miséria fica.
A escravidão acaba e o racismo fica.


Os governantes caem e o poder fica.
O bancos falem e  a ganância fica.
A guerra cessa e a violência fica.
O vírus some e o medo fica.


Não são as pessoas que destroem.
Não é a criança que cresceu e decidiu comprar o planeta. 
Ela brincava de bola com a gente.
Cantava Parabéns no meu aniversário. 
Se sujava de farinha quando o balão estourava  e as balas caiam.
Não! Essa criança não.


São as estruturas que destroem.
Um sistema complexo de relações.
Que certamente jamais saberemos seu funcionamento completo. 
Porque cada um de nós é uma peça nessa engrenagem.
E peça não fala, não pensa, não sente, não chora.
Peça é substituída quando estraga. 
Mas esse carro amigo.
Esse carango chamado sistema.
Jamais pode parar. 


Guga Ribeiro




Cooperação do homem espírito engrenagem da equipe humana | Foto Grátis

SANGUE, SUOR E COR

        Compreendo o racismo da elite. O racismo burguês. Trata-se de justificar nada mais que uma forma de perpetuação no poder. Nesse caso, tendo em vista uma breve análise histórica da sociedade moderna, uma superioridade racial decorrente de uma superioridade bélica.
         Fundamentada em um propósito ambicioso decorrente das grandes navegações e amparada por uma ideologia eclesiástica, foi criada uma ideologia na qual os seres humanos de cor preta não possuiam alma. Grosso modo, detentores do poder econômico  e político determinavam quem tinha ou não alma, sob respaldo da mesma instituição Cristã que queimava  mulheres em praça pública. 
          Desta forma, despossuidos de alma, os negros cativos poderiam sofrer os mais severos tipos de tortura física  e psicológica, trabalhando exaustivamente até sua morte, pois não eram considerados seres humanos. Em outras palavras, o que diferenciava um escravo de um burro, principalmente no Brasil Colônia, era apenas o preço.   
          Erigimos pontes, estradas, fortificações e castelos. Cultivamos lavouras, cuidamos do gado, extraímos ouro, construímos um país. Continuamos limpando casas, recolhendo  lixo, lavando carro, virando massa e jogando bola. Para onde foi toda riqueza produzida por nós? Cadê nossa indenização decorrente dos séculos de trabalho não pago e das condições desumanas de trabalho exercida por nossos ancestrais não tão distantes?. Trata-se de uma dívida impagável. Uma dívida que sequer foi admitida pelos principais protagonistas do cenário social, político e econômico da atualidade.  
           Também compreendo o pobre racista, o preto racista, o nordestino racista, o gay racista, o gordo racista, o judeu racista, a mulher racista. Compreendo por vários motivos, mas principalmente pelo fato de não conceberem que o preconceito que  a gente sofre é o mesmo preconceito que  a gente exerce. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém, mas podemos viver em um mundo em que  a cor da pele não seja um passaporte para o inferno.


Gustavo Ribeiro Alves



Gabinete de História: 13 de maio - Abolição da escravidão: o fim ...Os poderosos podem matar um,duas ou três rosas, mas jamais ...

TE AMAR

O sereno passou ninguém notou.
O céu abriu, você se foi.
Perdi então  a chave
Que guardei pra ti.


O sol e o mundo
O amor que foi
A vida agora
Hoje e depois.


Sei que podemos mudar.
Fazer o que nos faça amar.
Viver, sentir
O amor de estar aqui.


Quero ver você sorrir
Beijar sem ter para onde ir
Ouvir um pouco a sua voz
Te olhar sem medo de te perder.


Dormir  e não sentirmos dor
Comprar o que ninguém criou
Sonhar com o que já foi o céu
Te amar... Te amar...


Guga Ribeiro


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