sábado, 20 de janeiro de 2018

PAI

Pai... Ela não quer deixar eu jogar.
Pai... Ele me bateu.
Pai... Tô com fome.
Pai... Me abraça. 
Pai.... Conta historinha pra mim.
Pai... Compra uma mochila holográfica para mim.
Pai... Não quero almoçar.
Pai... Vamos comer hambúrguer hoje.
Pai... Não vou tomar vacina.
Pai... Faz pipoca pra gente.
Pai... Minha irmã pegou meu lugar.
Pai... Meu irmão pegou meu travesseiro.
Pai... A gente vai morrer um dia?
Pai... Por que você se separou da mamãe?
Pai... Me leva no show 
Pai... Queremos refrigerante.
Pai... Pai... Paaaaaaaaaaaaii...
A gente te ama.
Eu também amo muito vocês. 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FRONTAL

       Nunca tomei tanto ansiolítico na minha vida quanto naquele inverno de 2013. Estava quase apagando debaixo do chuveiro. Sentia a água bater na minha nuca e minha bunda encostar no azulejo. Ane disse:
- O que está fazendo ai cara? Você não pode ficar tomando esses remédios por conta própria.
- Estou tomando banho. O médico receitou para você. Se vale para você, vale para mim também. Com a receita que você me deu só conseguiria comprar duas caixas. Comprei quatro. Duas para mim e duas para você. Tenho meus meios.
       Minha língua enrolava enquanto eu falava. Queria ficar ali para sempre. 
- Vamos, levanta logo daí. Tá ficando maluco? - Disse Ane.
-Tudo bem, estou saindo.
      Sabia que ela não iria me ajudar a levantar. Sabia que ela não me esticaria as mãos e me puxaria com força para me levantar do chão.Não me entregaria uma toalha seca e nem me daria um abraço, falando palavras de consolo no meu ouvido. Sabia disso. Com muito esforço consegui me levantar sozinho. Desliguei o chuveiro e coloquei uma bermuda.
      Nessa época quase não escrevia. Não fazia poesias. Coisa nenhuma. Meu trabalho era suficientemente estressante para isso. Passava quase 24 horas acordado. Quando conseguia descansar, deitava por umas duas horas em um maldito colchão com capa de plastico. Suava e meu corpo colava no colchão. Colegas de quarto roncavam e peidavam no dormitório. Um verdadeiro inferno. Já estava nisso havia quatro anos. Sabia que eu estava pirando. Nenhum ser humano normal consegue trabalhar 24 horas, ainda mais em uma delegacia de polícia. Ladrões, viciados, traficantes, estupradores, valentões, homicídas, homens traídos, mulheres mal amadas, loucos, enfim... tudo que existe de pior na sociedade. E era justamente com isso que eu tinha de lidar durante 24 horas do dia. Não podia estar normal. Precisava de meus comprimidos azuis. Precisava da minha caixa de cerveja. Meu casamento estava por um fio e Ane estava realmente insuportável.     
      Sempre amei minha esposa. Mas realmente sinto falta de pouquíssimas coisas do casamento. Da vida sexual não era mais capaz de lembrar. Lembrava da lista do mercado. Lembrava de levar o lixo, de pagar as contas e até de dar água e ração para o cachorro. É, realmente eu estava enlouquecendo. 
Hoje fico rindo por dentro quando alguém atende o telefone e fala com sua esposa:
- Oi amor. tudo bem? O que houve?
-Tudo bem. Você lembrou de comprar o leite João?
- Fiquei pegado aqui no trabalho. Infelizmente não tive tempo Cíntia.
- Pois é. E agora? Acabou o leite do seu filho.
- Você pode comprar Cintia?
- Mas você já está na rua, não custa nada.
- Tá amor amor. Eu me viro.
       Tá bom porra nenhuma. Tá uma merda. Você tá fudido. Vai ficar resmungando sozinho. Se chegar em casa sem a porra do leite, vai ter de se contentar com uma punheta no banheiro ou com os comprimidos azuis. Ou os dois. Se der sorte ela não vai estar te esperando em casa com aquela camisola de bichinho e com aquela maldita calcinha creme. 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A ÚLTIMA GOTA

Como pensei em você hoje.
Como queria poder compartilhar minha alegria com você.
Mas lembrei que não devo mexer em uma ferida
Que ainda não cicatrizou.
Pode ser que agora você esteja deitada.
Abraçada com outro corpo que não é o meu.
Pode ser que ele esteja te fazendo carinho
Que só eu achei que sabia dar.
Toda vez que vejo seu rosto
Me dá uma enorme alegria.
Me faz lembrar de tudo que vivemos.
Da gente abraçado, sentados na areia,
olhando o luar.
Da gente dividindo a última gota,
da bebida que escolhemos juntos.
Repartindo o último pedaço do nosso jantar.
Pode ser que agora  a última gota não exista.
Pode ser que o último pedaço esteja em outra boca.
Mas quando imagino seu sorriso,
esqueço dos outros,
esqueço de tudo.
Me lembro de tudo que fizemos e que jamais esquecerei.
Me lembro de cada toque  e carinho.
De cada abraço apertado.
Das suas costas coladas no meu peito.
Do ventilador secando nosso corpo.
E do lençol nos cobrindo no insano calor de Janeiro.
Como pensei em você hoje.
Como sinto sua falta.
Queria compartilhar tanta coisa.
Mas não posso e nem devo lhe causar mais dor.
Não quero pensar que  a cada verso lido,
suas lágrimas escorram,
e seus pensamentos se voltem para nós.
Porque nós não existimos mais um para o outro.
Porque agora só existimos em nossa lembrança.
Das nossas noites quentes de verão.
Dos nossos sonhos.
E do nosso amor que sei que um dia vai voltar.
Como aquela lua.
Aquela mesma que víamos sentados na areia.
Escutando as batidas da onda do mar.


Guga Ribeiro

domingo, 14 de janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O MELHOR CAFÉ DA CIDADE

       A maior parte do ano esse apartamento passou vazio. Aluguei em Setembro. Nem pude comemorar direito o aniversário de minha filha. Em pouco tempo comprei mobília usada. Já tenho até máquina de lavar. A cama ganhei de presente.  E que belo presente. Só me falta a vitrola pra escutar meus velhos discos de rock. As baratas já conseguiram seu espaço durante o recesso noturno. O vinho já não é mais tão barato quanto antes.  E ainda posso me dar ao luxo de andar nú até o meio dia. Hora em que o vizinho do prédio da frente chega ao escritório para trabalhar.                          Ademais não tenho muita rotina. Não tenho sido metódico, apenas me importo em jogar o lixo fora. Costumo sair as sextas pra beber sozinho. Parei de beber durante a semana. Pelo menos até receber alta do meu tratamento.  Cansei de ir a praia. Vou ao cinema, porque não pago e fica a duas quadras do meu quarto. Tenho um grande orgulho.  Nunca fiz sequer um arroz ou feijão.  Nunca fiz nada para almoçar ou jantar que não fosse comprado ou aquecido no forno de microondas. Não me orgulho da louça.  Também não me orgulho do cheiro de banheiro de botequim. Procuro manter a roupa de cama limpa e as toalhas também.  Jamais deixei de fazer um bom café.  Ao menos isso. O melhor café da cidade. 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

ÚLTIMO BEIJO

O último beijo do ano foi você quem me deu.
A última língua que encostou na minha foi a sua.
Foi o seu perfume que ficou na minha camisa pela última vez.
Foi o seu sorriso que eu levei quando você me deixou no aeroporto.
E de nada adiantaria se não te amasse.
Nada importaria se as últimas coisas que fizesse em vida não fossem com você.
Porque acontece alguma coisa muito estranha quando te olho.
Existe alguma coisa que ninguém jamais vai conseguir explicar quando seguro sua mão.
Quando me vejo perdido e sem direção.
Por só conseguir enxergar você.
Por só conseguir amar você.
Meu peito se enche de um ar diferente.
E suspiro pensando em como você é importante para mim.
E não me importa se tudo não for recíproco.
Não me importa o que ninguém pensa.
Porque ninguém jamais será capaz de entender.
O quanto eu te amo.

Guga Ribeiro