sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Não sou ninguém

 Não sou ninguém! Quem é você?

Ninguém - Também?

Então somos um par?

Não conte! Podem espalhar!


Que triste - ser - Alguém!

Que pública - a Fama - 

Dizer seu nome - como a Rã -

Para as almas da Lama!


Emily Dickinson 

Fecundação

 Teus olhos me olham

longamente,

imperiosamente...

de dentro deles teu amor me espia.


Teus olhos me olham numa tortura

de alma que quer ser corpo,

de criação que anseia ser criatura 


Tua mão contém a minha

de momento a momento:

é uma ave aflita 

meu pensamento 

na tua mão.


Nada me dizer,

porém entra-me a carne a pesuasão

de que teus dedos criam raízes

na minha mão.


Teu olhar abre os braços,

de longe,

à forma inquieta de meu ser;

abre os braços e enlaça-me toda a alma.


Tem teu mórbido olhar

penetrações supremas

e sinto, por senti-lo, tal prazer,

há nos meus poros tal palpitação,

que me vem a ilusão 

de que se vai abrir

todo meu corpo

em poemas 


Gilka Machado 

Coletivo

 Despertador tocou.

Olhei pela janela.

A noite ainda invadia o meu quarto.

Era hora de levantar.

Botei minha camisa limpa

Mas amarrotada.

Tomei um café.

Sem aquelas baboseiras 

De casa de rico na T.V.

Aqui é periferia mano.

Caminhar até o ponto.

Pegar o busão e ficar pensando

Em momentos bons e coisas boas.

Esperar ansioso a hora do almoço.

E depois ir embora no mesmo coletivo

Que peguei de manhã.

Com as mesmas pessoas que vivem como Eu.

Esperando o fim de semana chegar

Novamente.


Guga Ribeiro 

Palestina

 Um ataque aéreo.

Crianças mortas no chão.

Mães chorando.

Pais distantes.

Sonhando com pouca coisa.

Um lar aquecido.

Um abraço dos filhos.

Um beijo da esposa.

E um copo de café quente.

Aquele com cheiro que lembra infância.

Quando as armas eram feitas de madeira.

Quando brincávamos de policia e ladrão.

Depois chegavamos em casa 

Ganhavamos uma bronca da mãe 

- Direto pro banho! Ela dizia.

Depois....

Um cobertor, um café com leite.

Boa noite mãe! 

Boa noite meu filho!

Dorme com Deus! 

Eu te amo!


Guga Ribeiro 


Impressão

 Tenho a impressão 

De que os anos estão mais velozes.

Minha mãe já se foi.

Aquele vizinho legal também.

Na infância o tempo passa devagar.

Porque cada dia é uma novidade.

Gostos, cheiros, gestos...

Isso já se foi.

Não tem mais nenhuma novidade.

Mas presumo que de todas elas

Eu já sei do que gosto.

Aí fica mais fácil viver .

Fica mais leve a jornada.

Porque da metade 

Tenho certeza que já passei.

Então o que realmente importa 

É Hoje.

O momento exato em que sentimos o oxigênio.

A resposta certa que damos do fundo da sala.

A topada doida do canto do sofá.

Assim mesmo.

Ainda posso escrever. 


Guga Ribeiro 



Impermeável

 Não entendo Mário 

Nenhum Andrade.

Nem era para entender.

Nem aquele que carrega em seu nome

A cruz do Nazareno

E o Souza dos cigarros. 

Entendo o b-a-ba do Jorge

Muito Amado.

A intensidade do Azevedo

O da face Caliban.

A loucura do Augusto

Dos anjos caídos.

Entendo o Dias

De índios guerreiros.

Entendo batatinha quando nasce.

E só recentemente entendi.

Que ela não se esparrama pelo chão.

Que espalha ramas pelo chão.

Que loucura!


Guga Ribeiro 

Átomo

 As vezes, a noite, antes de dormir

Penso muito no fim.

Não só naquele fim escuro e frio 

Penso no fim daquilo que fica.

No fim do amor, dos amigos, da vida, da família.

Realmente nada é eterno.

Nem os átomos desta galáxia.

Nem os copos mais bonitos de vidro.

É o fim do pensamento, da consciência do EU.

Ainda ficamos por um tempo na terra.

Em algumas próximas gerações.

Depois.... Não importa depois.

Importa você, importante hoje, importa nós.

Enquanto respirarmos o mesmo ar

Eu e você.

Seu sorriso, seu olhar 

Minha pele morta

Meus dedos enrugados

Esperando o momento de virar átomo. 


Guga Ribeiro