sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

ONDAS

Enquanto a areia era molhada pelo vai e vem das águas, as conchas brilhavam e sua pele se misturava com o sol.
Eu forçava os olhos tentando te enxergar.
Seus pés marcavam a areia e eram apagados pelas ondas.
Sua luz se aproximava enquanto eu abria os olhos lentamente.
Você segurou a minha mão e caminhamos juntos.
Nossos passos sendo marcados e demarcados.
Nossa respiração sendo lembrada e esquecida pelos pássaros.
Nossas memórias e nossas histórias caminhando na mesma direção.
E assim se pôs o sol.
E assim se acalmaram as ondas, os dias e a vida.
Mas não o nosso amor.
Pelo menos não enquanto estivermos aqui, andando na mesma terra.
Que um dia irá nos abraçar e nos tornar únicos.
Como as ondas.
Como a areia.
Como tudo que existe.

Guga Ribeiro.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

NÓS

Só você e eu em uma ilha deserta.
Para poder ver o nascer do sol todo dia juntos.
Para escalar o coqueiro mais alto,
E olhar a imensidão.
Ninguém precisaria salvar a gente.
Estamos salvos juntos.
E o brilho da água se transformou em nosso programa de T.V. favorito.
A cachoeira passou a ser o mais veloz meio de transporte.
E a areia virou minha roupa predileta.

Sentar com você no fim da tarde.
E esperar o grande astro descansar.
Justamente quando o céu se transforma,
No palco principal do nosso espetáculo.
E quando seu sorriso aparece...
E quando enxergo seu EU mais que o EU...
Vejo que estou certo em estar a seu lado.

A mais negra nuvem você afastou.
O mais íngreme abismo você evitou.
E aí, mesmo no fundo do poço...
Mesmo nas mais obscuras noites...
Você me tem.
E aí, tudo se esvai.
Como um novo dia.
Como uma nova flor.
Somos nós, eu e você.
Somos a vida.
Somos aquilo que queremos ser.
O que eu, você, ninguém ...
Mas ninguém mesmo,
Jamais vai saber.
Que o centro de tudo.
Que a máquina que sempre irá nos mover.
É o amor, somente o amor.
De todos.
De todas.
De nós , mais que tudo...
De Nós.

Guga Ribeiro


DENSIDADE IDEAL

Como tatuagem que não sai da pele.
Como óleo que se mistura com a água.
Ainda que se prove o contrário...
Eu sou o óleo.
Você é a água.
E ninguém será capaz de mudar.
O que quer que seja nos uniu.
O que de hoje,
Já ontem se foi.
O que de ti,
É tudo para mim.

Guga Ribeiro

MINHA JANELA

Minha janela não é de frente para o mar.
Minha janela não é de frente para um belo jardim.
Da minha janela não se vê lua cheia.
Da minha janela não se vê pássaros, borboletas e rosas.
Minha janela é ferro enferrujado.
Minha janela é retângulo quadrado.
Da minha janela vejo ratos passando.
Da minha janela vejo um homem trabalhar.
Isso devia ser proibido.
Todo mundo devia ter janela de frente para o mar.
Só para ver...
Aquela mulher feita de Areia.

Guga Ribeiro

quinta-feira, 26 de abril de 2018

MURO

Um dia as manchetes irão noticiar,
A criação de um novo muro.
Bem no meio do cérebro.
Os cientistas irão ganhar o Nobel,
Pela nova criação.
Ninguém vai precisar mais
De inibidores seletivos de recaptação de serotonina.
Nem de reguladores de neurotransmissores.
Porque esse muro artificial.
Será capaz de isolar tudo de ruim,
E deixá-los esquecidos em uma região.
Que ninguém será capaz de entrar.
Então os dias nublados vão acabar.
As noites de insônia vão desaparecer.
A arritmia descontrolada vai cessar.
Os bichos peçonhetos vão sair das paredes.
E como brisa de verão.
Você vai poder descansar.
E com a mente completamente vazia.
Vai poder saborear.
Sua bebida preferida.
Onde você quiser.

Guga Ribeiro

sexta-feira, 20 de abril de 2018

THE DOORS - PEOPLE ARE STRANGE


CHICO E CAETANO


NADA MAIS QUE TU

Queria escrever alguma coisa bonita.
Queria escrever algo sobre você.
Mas palavras não são como o vento.
Que passa sem deixar vestígios.
Palavras são como marcas de batom.
Difíceis de limpar e de esquecer.
Não é o tempo.
Não são os lugares.
Na verdade é tudo que foi dito.
Foram os olhares, os sorrisos.
Foi a mão entrelaçada.
O abraço apertado e o beijo inesperado.

E todos os dias tudo se reescreve.
Trazendo a tona um novo dicionário.
Em que palavras se confundem com gestos.
E nós... Que não somos tolos.
Havemos de encontrar.
A mais pura beleza.
Daquilo que é dito.
Nas horas em que só o coração,
Permite saber.

Tal qual um poeta byroniano.
Não sabe que palavras.
Essas mesmas palavras.
Não cabem neste dicionário.
Portanto...
Não escreva nada.
Não procure nada.
Seja Tu.
Nada mais que Tu.

Guga Ribeiro

PRISIONEIRO

Não sei em que momento,
Meu olhar se perdeu em seus olhos.
E passei a descobrir,
Que existe alguma coisa diferente.
Que essa sensação era melhor que brincar com os amigos da escola.
Aprendi que esse olhar inocente,
Causava dor.
Pelo fato de que nem sempre a vontade,
Era recíproca.

Não, você não foi a primeira.
Também não foi a única.
E devo dizer, que talvez não seja a última.
Mas se acaso for.
Peço que me deserde.
Que me jogue de um despenhadeiro,
E que me enterre depois,
Em uma vala comum.

Como répteis que se adaptam a temperaturas extremas.
Que se mimetizam para sobreviver.
Eu...
Com todo maquinário moderno.
Me recuso a entender.
Que o que descobri na infância.
Viria a se tornar a minha prisão.

E por mais que esperasse o primeiro beijo.
Por mais que esperasse o verdadeiro amor.
De nada adiantaria.
Porque toda essa confusão.
Toda essa mistura de sentimentos.
Não iria desaparecer.
Porque um dia,
Assim como aquela menina da escola.
Eu encontrei você.
E então...
Meus dias passaram a ser diferentes.
Me tornei prisioneiro.
Daquilo que eu mesmo criei.

Guga Ribeiro

HOJE

Hoje acordei e não vi ninguém.
Abri a cortina e vi um céu nublado.
Coloquei a água do café para ferver.
E voltei a deitar.
Pensando em quase tudo que vivi.
E no que será daqui para frente.

Hoje acordei sem o relógio para despertar.
Pensei que talvez você pudesse ter me ligado.
Mas acho que nada disso importa mais.
Prefiro colocar o chinelo e molhar o pé na chuva.
Sem saber como vai ser o amanhã.

Hoje acordei mas não sonhei.
Não ouvi pássaros cantarem.
Não senti o sol entrar no meu quarto.
Não vi você do meu lado.

Vou para longe mesmo.
Caminhar sozinho e tentar me encontrar.
Lutando todos os dias contra a depressão.
Que sempre insiste em voltar.
Ainda mais nesses dias em que o mundo ,
Parece um faz de contas.
Nesses dias em que as estrelas não aparecem.
E que o amanhecer nada mais é
Que poeira ao vento.

Guga Ribeiro

sábado, 7 de abril de 2018

EDVARD MUNCH


" Não tenho vergonha de dizer que estou triste.
Não dessa tristeza ignomíniosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste porque vocês são burros e feios
E não morrem nunca... "


  • Mário Quintana

DIALÉTICA

" É claro que a vida é boa.
E a alegria, a única indizível emoção.
É claro que te acho linda.
Em ti bendigo o amor das coisas simples.
É claro que te amo.
E tenho tudo para ser feliz.

Mas acontece que eu sou triste..."

Vinicius de Moraes
Todo artista tem uma musa inspiradora. Algumas sempre acordam de ressaca.

Guga Ribeiro

MI VIDA ERES TU


SIGAM

Minha mãe me dizia
Que via quando a gente crescia
Enquanto estávamos dormindo
E ela podia ver o tamanho dos nossos pés.

Como está grande o pé da minha filha.
E do meu garoto também...
Como estão crescendo.

Só consigo me segurar em vocês.
Se não já tinha tombado.
Porque nada mais me importa nessa vida.
Pra mim nada mais me interessa.
Mas para vocês...
Sei que o mundo está apenas começando.

Preciso estar forte.
Para poder ser o alicerce de seus sonhos.
Para poder ser o alicerce da felicidade de vocês.
Ainda que mais tarde o mundo mude.
E tudo passe a ser como história de carnaval.
Rápida, intensa e inesquecível.

Porque quando eu partir...
Vocês saberão que o que ficou, ficou por vocês.
Assim como minha mãe ficou por nós.
Continuem caminhando forte.
Nunca olhem para trás.
Apenas sigam em frente.

Guga Ribeiro

RALO

Tudo que vai para o ralo tem um destino.
Não interessa como entrou,
Não importa se queria.
Está lá.
E agora...
Vai descer.
Junto com os outros,
Que também entraram.
E se puder ao menos aproveitar o trajeto.
Sei lá....
Nas curvas do encanamento.
Na velocidade dos ângulos de 90 graus.
Ótimo...
Porque no final. ..
Vamos todos nós misturar.
Porque no fundo é tudo a mesma coisa.
Porque no fundo, bem no fundo dessa piscina de bosta.
É tudo criação Divina.

Fucking Crazy

VAMOS JUNTOS

Onde você está agora?
Onde está tocando a nossa canção?
Posso te preparar um drink?
Por que você me deu de ombros quando tentei te dar um beijo?
Por que você empurrou minha mão e disse para eu me afastar?
Sou eu baby, sou eu que estou aqui.
Calma...
Vamos juntos para casa hoje.
Ainda que a casa seja chão de Areia.
Ainda que o teto seja ar.
Vamos juntos para casa hoje.
Do jeito que der.
Só para você colocar na minha boca...
Aquele pedaço de carne que você fez para nós.
E depois me beijar com a boca engordurada
E com o copo de cerveja na mão.
Fico quietinho... Eu juro.
Porque o que mais me deixa apaixonado...
É que você...
É tão louca quanto eu.

Guga Ribeiro

MEU ÚNICO LEITOR

O jornal de domingo de frente à porta.
E aí você levanta,
Depois de sacudir a cabeça
E se arrastar pelo corredor.
Pega... Deixa ali...
Enquanto se recupera.

E diferente das mulheres,
Que entram juntas com amigas no banheiro.
Você leva apenas noticias e classificados.
Enquanto lê, tenta esquecer desse mundo tão desprezível.
Pula as manchetes repetidas.
Para no horóscopo.
Lê ao menos a nova escalação do seu time.

E vai...
Lá mesmo, onde tudo se mistura em palavras.
Onde o sentido depende de você.
Em um lugar onde o real se mistura com o imaginário.
Onde emoção se mistura com poesia.
E lá você avisa:
"Olha menino... As pessoas te amam".
Mas você também sabe,
Como único leitor...
Que o amor...
Assim como os classificados,
Largados no chão do banheiro
Nunca serão lidos.
Irão forrar outros chãos,
Depois que o cheiro da água sanitária se espalhar.

Fucking Crazy

quarta-feira, 4 de abril de 2018

MALANDRO

Tinha apenas dois contos de réis.
Na lapela, terno bordado.
No estômago, água de salsicha.
Descia a ladeira do óleo enlatado,
Da guarita perversa,
Do pesadelo de Sócrates.
Descia com seu malemolente gingado,
Com um sorriso escancarado,
Do novo cordão.
E do jantar oferecido à patroa.
Camarão, batata frita e feijão.
Tudo regado a mais pura cachaça.
Nunca teve dor de cabeça.
Mas teve muitas ressacas.
De linho importado
E chapéu na cabeça.
Desce o morro,
Desce...
Desce o morro malandro.

Guga Ribeiro

segunda-feira, 2 de abril de 2018

AMPULHETA

O garoto olhava os vitrais
E em seus olhos refletiam
Todos os seus sonhos.
Ele olhava o mar
E se jogava...
Sem medo, sem porquês.

O garoto andava assim...
Sem pressa de chegar,
Sem saber onde a noite iria terminar.
E quando amanhecia...
Começava tudo de novo.
Ele já sabia o que fazer.

Mas as cores começaram a mudar.
E o mar já não enfeitiçava como antes.
O garoto começava a ver seus sonhos
Cada vez mais distantes.
Ele começava a entender que a vida
Era como Castelos de Areia
Que se erguiam já sabendo que iriam tombar.

A areia da ampulheta começou a diminuir
E cada grão que cai...
Ecoa com um som cada vez mais forte.
E cada sacudida...
Nos envelhece ao menos dez anos.

O mutante homem interrogação
Não consegue captar nada diferente da realidade nos vitrais.
Sem ilusões e promessas falsas.
Ele caminha... Caminha...
Na mesma estrada que todos.
Com milhões de ampulhetas.
Esquecidas...
No Vale dos sonhos perdidos.

Guga Ribeiro




DE VOLTA A TERRA DO NUNCA

       A atual conjuntura política e econômica de nosso país, levando-se em consideração a estreita relação entre a máquina Estatal e as grandes corporações econômicas, vem passando por um processo de pseudomoralidade, sob a égide de normas e sobrenormas determinadas, notadamente, pela elite do poder judiciário.
   Em contraponto a uma posição maniqueísta, julgando como principal diretriz, uma obsessiva intenção de execrar do nosso histórico sistema "Casa Grande e Senzala", apenas um determinado grupo político e sua principal liderança. Devemos considerar, em um primeiro momento, que a observância da lei, deve ser estendida a todos, independente de sua condição social e política. Todavia, tal fato não vem sendo observado, tendo em vista as principais decisões da suprema corte bem como dos pupilos do Capitão Gancho.
          A questão crucial dessa discussão, não se esgota, única e exclusivamente, no campo político e ideológico. Trata-se de um antigo embate entre liberalismo econômico versus intervenção Estatal. Grosso modo, evidência-se uma relação direta entre os interesses internacionais, nitidamente dos principais holdings, trustes e cartéis e as forças políticas responsáveis pela atuação irrestrita destes em território nacional, acompanhada de uma política econômica que atenda suas principais demandas.
          Não obstante, ao verificado em âmbito nacional, aliado a esse turbilhão à jato, verificamos uma total falência dos serviços públicos e um aumento assustador da violência e da desigualdade social. A chamada PAZ SOCIAL, talvez tivesse existido no " tempo que Dom Dom jogava no Andarai" ou, quando Copacabana ainda era uma " Princesinha" e não uma Rainha decadente, drogada e prostituída.
    Amplos territórios controlados por grupos paramilitares, ligados à grandes cartéis de narcotraficantes e traficantes de armas, fazem parte da realidade de alguns Estados, principalmente do Rio de Janeiro. A visão de jovens portando fuzis e granadas,  nas principais periferias e favelas cariocas, estão estampadas como um novo cartão postal. Estamos nos tornando a Medellin de Pablo Escobar, porém do século XXI.
       A grande diferença é que aqui, na cidade maravilhosa, a verdadeira "Guerra de Guerrilhas" está apenas começando. Ainda não sequestraram políticos e seus familiares. Ainda não assassinaram Generais. Ainda não partiram para a "Guerra Total", amplamente divulgada por Goebels, durante a segunda guerra mundial. Embora o atual conflito já tenha alcançado os asfaltos e vitimado milhares de civis nos últimos anos, devemos nos atentar para o fato de que tal confronto irá se aprofundar e as hostilidades irão, inevitavelmente, recrudescer.
       Como Dom João VI, acuado pela postura expansionista de Napoleão e pela pressão econômica exercida pela Inglaterra, prefiro deixar a antiga Capital Federal, deixando para trás toda mobília velha, todos os souvenirs, toda minha memória. E como uma nau portuguesa, repleta de filhos de Pedros, Juçaras e Isauras, buscamos mar à vista em outras cercanias globalizadas. Onde apenas o fato de poder dormir e acordar em paz, seja motivo para sorrir novamente.

Gustavo Ribeiro Alves 

sexta-feira, 30 de março de 2018

ROSA

Hoje eu vi uma senhora sair do elevador.
Ela era magra, tinha cabelos brancos,
Um sorriso sincero e um olhar bondoso
Devia ter 80 anos.
Eu pensei...
Poderia ser você.
Você poderia estar aqui com a gente.
Poderia ter visto seus netos crescerem.
E torcer comigo aos domingos,
Para o nosso time de coração.

Eu queria abraçá-la.
Queria segurar sua mão e atravessar a rua com você.
Como quando era criança.
E você sempre trazia uma lembrança para nós.
As vezes um chocolate...
As vezes amendoim torrado...
As vezes um brinquedo...
E as vezes nada...
Mas nada nunca era nada.
Não para você.
Que com um carinho sincero,
Com um abraço apertado,
Nos fazia dormir.. 
E lembrar de como a vida era boa.

Mas você se foi...
E agora nada mais restou.
A raiz foi arrancada.
E agora só restaram galhos e folhas.
Que estão secando com o tempo.
E que em breve irão morrer.

Toda vez que vou deitar,
Lembro dos seus últimos momentos aqui.
Lembro que não consegui chegar a tempo no hospital.
Lembro de você desfalecida nos meus braços.
Lembro de tudo... Toda noite.
E não consigo dormir.
Eu não consigo dormir.

Todos os dias vejo senhoras.
Que imagino ser você.
Fico parado olhando...
Querendo dizer.. Cheguei mãe.
Fico esperando você me acolher.

Não tenho mais nada.
Não tenho ninguém.
Queria viajar para o futuro.
Para pegar a cura do câncer.
Voltar ao passado.
E poder salvar você.
E aí então ...
Poderia te abraçar de novo.
Segurar sua mão.
E dizer que te amo.

Guga

segunda-feira, 26 de março de 2018

Plumbum

Nasci para ser sozinho.
Como cão sem dono em uma noite fria.
Sem jornal para aquecer as costelas famintas.
Sem osso para saborear poucos minutos de alegria.

Nasci para ser sozinho.
E imaginar dentro desse quarto escuro.
Que o mundo não é maior que nossa mente.
Sozinho em um convés de um transatlântico vazio.
Ou em uma praia cercada de Palmeiras e água beirando o azul piscina.
Sozinho como Crusoé.
Como Dante em um asilo de seu próprio inferno.

Nasci para ser sozinho.
No meio da multidão.
Entre festas, bares,  esquinas.
Entre carros, metrôs e avenidas.
De sinal em sinal.
De Janeiro à Dezembro.
Roto, torto, Lazarento.

Nasci para ser sozinho.
Para viver sem nenhum amor.
Para abraçar o par...
Do travesseiro que sobrou.
E ter somente uma xícara.
Somente um prato.
Uma taça de vinho.
Um pouco de água para beber no gargalo.

Nasci para ser sozinho.
Como um gato..
Que não tem dono mesmo.
Em cima de uma marquise.
Comendo as sobras.
Jogada dos apartamentos.
E depois lembrar...
Do veneno que puseram... não para ti.
Para seus inimigos, ratos.
Mas ninguém avisou.
Que esse chumbo pulverizado também serve...
para gatos...
Para cães...
Para homens...
Sozinhos.

Fucking Crazy






sexta-feira, 16 de março de 2018

HOMETOWN

Caminhando lentamente em sua cidade natal.
Eu sinto que não esqueci nada em casa.
Continuo andando como se o amanhã,
Fosse sombra de amendoeira.
Os carros passam em um ritmo de contemplação.
Com janelas abertas e olhares serenos.
Na grama verde posso deitar
Sentir o sol aquecer um coração cansado.
Esticar o corpo como um cachorro que acaba de acordar.
Dormir,sonhar e despertar com tudo no seu devido lugar.
Menos aquele casal bonito.
Que em algum momento evaporou.
Como gota d'agua em panela fervendo.
Percebi que aí... O tempo passa de uma forma diferente.
Que as esquinas tem nomes europeus.
E que todos param no sinal vermelho.
Mas ainda que o carpete seja diferente.
O amar é sempre amar.
Sem motivo, razão ou direção.

Caminhando lentamente nas ruas de Leminski,  Trevisan, Sil Barsi.
Lembro que tenho que voltar
Pra minha caixa em preto e branco.
Para o lugar em que só forasteiros param em sinal vermelho.
Em que as janelas ficam todas fechadas.
E os olhares sempre atentos.
Onde os parques são teias.
Repletos de aranhas carnívoras.
E nem as praias conseguem mais amenizar.
O calor assassino da minha cidade natal.
Mas o amor que sinto por você.
Ah... Esse amor...
Tá aqui....
Bem guardadinho.
Esperando a próxima chamada.

Guga Ribeiro

LUZ DOS OLHOS


quinta-feira, 15 de março de 2018

CÉU

No céu não tem carro.
Não tem relógio digital.
Não tem rede social.
Nem roupa de grife.

No céu não tem barão, nem baronesa.
Não tem Duque, nem Duquesa.
Nem colar de pérolas ou esmeraldas.
Não tem anel de ouro e nem pulseira de prata.

No céu não tem mansão.
Não tem cofre, nem caixa forte.
Não tem mordomo, nem empregados.
Não tem champanhe e nem caviar.

No céu não tem iate, nem campo de golfe.
Não tem coluna social, nem fotos em.jornal.
Não tem avião particular.
Nem putas de luxo.

No céu de todos os Deuses.
Não tem nada disso.
Então por que você quer ir para o céu?
Por que se ajoelha no altar pedindo perdão pelos seus pecados?

Vai para o inferno.
Se juntar com todos de sangue azul.
Vai para o inferno.
Subornar o Diabo.
Vai direto para o inferno.
Sem escala para o purgatório.
Com tudo que acumulou.

Deixa o céu para quem nunca teve nada.
Deixa o céu para quem tira a roupa do corpo para ajudar um irmão.
Deixa o céu para aquele que divide o único prato de comida com o próximo.
Para aquele que nunca se importou de dormir e sonhar debaixo do céu estrelado.
Para aquele que caminhou descalço.
E realmente compreendeu,
O verdadeiro legado.
Do mestre Jesus.

Guga Ribeiro

TU

Ninguém me disse que não.
Também não disse... Talvez.
E como uma onda que arremessa um homem.
Arremessa um ser.

Que me disse que o querer,
Surpreende um ser capaz.
De entender e gostar do que não convém.
De gostar daquilo que nos é permitido.

E assim vamos descobrir,
O que a luz não consegue alcançar.
O que ninguém me disse ter certeza.
O que nos decidimos gostar.

E eu gosto, como uma fruta fresca.
Como o sabor de um beijo seu.
Como aquilo que se diz.... faz... Ao vento.
Como uma lua de um padre ateu.
Como uma rosa que desabrochou,
E nem sequer me perguntou
Para onde devo seguir.
E ainda que os espinhos machuquem
Ferida que não cicatrizou.
Quero descobrir que antes de tudo.
Que antes de um por do sol.
Reste ao menos a sorte, a vida.
De quem sempre me imaginou.

Guga Ribeiro

sábado, 10 de março de 2018

EU MESMO

Há quanto tempo não sinto o cheiro desse ar.
Aquele cheiro que lembra os melhores momentos da infância.
De quando jogávamos bolinha de gude no quintal.
De quando parávamos no recreio da escola para lanchar.

Me remete a uma sensação de liberdade, descoberta.
A uma sensação de uma vida simples.
Onde o mais importante era ter com quem brincar.
Jogar bola, botão, pique esconde, bandeirinha, salada mista, pular carniça, polícia e ladrão.

As vezes me deparava com as prisões que os adultos construíam para si.
Que os impediam de caminhar para onde quisessem.
Que os impediam de ser quem realmente gostariam de ser.
E não entendia porque tudo passava a ser programado.
E que os sonhos jamais sairiam do papel.

Gostava do cheiro do café, do barulho da panela de pressão no fogão.
Gostava do rádio encostado na janela tocando os sucessos do momento.
Gostava de Zizi cantando "Perigo".
E me imaginava com a garota mais bonita da escola.
Dançando "spending my time" comigo.

Via Senna ganhar corridas no Domingo.
Ouvia o fla-flu na rádio.
Escutava Vinil e K7 no velho som da nacional.
E passava  horas na locadora de vídeo escolhendo os melhores filmes para o fim de semana.
Confesso que as vezes esquecia de rebobinar.

Que bom poder sentir o cheiro desse ar novamente.
Mesmo com you tubers, Wi-Fi, smartphones.
Mesmo com air-bag, refrigerante refil e Pablo Vitar.
Mesmo com todo esse inglês subversivo.
Posso respirar liberdade.
Fazer o que quiser.
Ser quem quiser.
Bem distante das prisões construídas para si.
Bem perto de onde o sol se põe e de onde o sol nasce.
Em qualquer lugar.
Rio de Janeiro, Curitiba, Canadá.
Longe da garota mais bonita da escola.
Junto com meu melhor amigo, meu fiel confidente, meu alento mais reconfortante: MYSELF.

Guga Ribeiro 10/03/2018.


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

SIMPLES

Eu sou daqueles que choram nos filmes.
Daqueles que dão lugar no ônibus para os velhinhos.
Dos que engolem seco quando vêem uma criança suja e perdida na rua.
Dos que não entendem tanta desigualdade social.
Eu sou daqueles que não se importam com roupa de marca.
Daqueles que nunca estão em lista VIP.
Dos que riem com o sorriso puro de uma criança.
Dos que não tem vergonha de perguntar quando se está perdido.
Eu sou daqueles que fica feliz com uma cerveja e um churrasquinho.
Daqueles que sabem a importância do amor.
Dos que não tem medo de encarar o mundo.
Dos que nasceram e vão morrer simples.


Guga Ribeiro.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

LOST CONTACT

As vezes perdemos o rumo mesmo.
Porque não é fácil navegar quando se está só.
Quando sua mãe está morta
e seu pai é um estranho para você.
Quando seus filhos estão distantes.
Quando alguém te pede para deixar um telefone de contato,
em caso de emergência.
E você não tem nenhum número para dar.
Então você dá seu próprio número.
Que se dane se o avião cair.
Que se dane se tudo for destruído.
Porque cada um já tem suas próprias preocupações.
Cada um já tem suas contas à pagar.
Porque quem realmente se preocupava comigo....
Porque quem realmente eu podia deixar o número de telefone
 e o nome em caso de emergência...
Morreu nos meus braços.
Em uma maldita garagem.
No dia 04 de maio de 2016.


Guga Ribeiro

DIA DE FINADOS

Não quero ser enterrado.
Não quero ser cremado.
Não quero velório,
nem cinzas ao mar.
Quero desaparecer.
Comido por um enorme tubarão.
No meio do Oceano Pacífico.
Perto do Triângulo das bermudas.
Assim ninguém vai gastar um centavo,
nessas malditas funerárias.
De repente meus filhos serão indenizados.
Ninguém vai precisar levar flores.
Ninguém vai ter que dormir com a lembrança ,
de seu rosto pálido em um caixão.
Coberto de flores brancas.
Vão ficar apenas com a última lembrança.
Da última vez que te viram por ai.
Assim está bem melhor.


Guga Ribeiro

sábado, 20 de janeiro de 2018

PAI

Pai... Ela não quer deixar eu jogar.
Pai... Ele me bateu.
Pai... Tô com fome.
Pai... Me abraça. 
Pai.... Conta historinha pra mim.
Pai... Compra uma mochila holográfica para mim.
Pai... Não quero almoçar.
Pai... Vamos comer hambúrguer hoje.
Pai... Não vou tomar vacina.
Pai... Faz pipoca pra gente.
Pai... Minha irmã pegou meu lugar.
Pai... Meu irmão pegou meu travesseiro.
Pai... A gente vai morrer um dia?
Pai... Por que você se separou da mamãe?
Pai... Me leva no show 
Pai... Queremos refrigerante.
Pai... Pai... Paaaaaaaaaaaaii...
A gente te ama.
Eu também amo muito vocês. 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FRONTAL

       Nunca tomei tanto ansiolítico na minha vida quanto naquele inverno de 2013. Estava quase apagando debaixo do chuveiro. Sentia a água bater na minha nuca e minha bunda encostar no azulejo. Ane disse:
- O que está fazendo ai cara? Você não pode ficar tomando esses remédios por conta própria.
- Estou tomando banho. O médico receitou para você. Se vale para você, vale para mim também. Com a receita que você me deu só conseguiria comprar duas caixas. Comprei quatro. Duas para mim e duas para você. Tenho meus meios.
       Minha língua enrolava enquanto eu falava. Queria ficar ali para sempre. 
- Vamos, levanta logo daí. Tá ficando maluco? - Disse Ane.
-Tudo bem, estou saindo.
      Sabia que ela não iria me ajudar a levantar. Sabia que ela não me esticaria as mãos e me puxaria com força para me levantar do chão.Não me entregaria uma toalha seca e nem me daria um abraço, falando palavras de consolo no meu ouvido. Sabia disso. Com muito esforço consegui me levantar sozinho. Desliguei o chuveiro e coloquei uma bermuda.
      Nessa época quase não escrevia. Não fazia poesias. Coisa nenhuma. Meu trabalho era suficientemente estressante para isso. Passava quase 24 horas acordado. Quando conseguia descansar, deitava por umas duas horas em um maldito colchão com capa de plastico. Suava e meu corpo colava no colchão. Colegas de quarto roncavam e peidavam no dormitório. Um verdadeiro inferno. Já estava nisso havia quatro anos. Sabia que eu estava pirando. Nenhum ser humano normal consegue trabalhar 24 horas, ainda mais em uma delegacia de polícia. Ladrões, viciados, traficantes, estupradores, valentões, homicídas, homens traídos, mulheres mal amadas, loucos, enfim... tudo que existe de pior na sociedade. E era justamente com isso que eu tinha de lidar durante 24 horas do dia. Não podia estar normal. Precisava de meus comprimidos azuis. Precisava da minha caixa de cerveja. Meu casamento estava por um fio e Ane estava realmente insuportável.     
      Sempre amei minha esposa. Mas realmente sinto falta de pouquíssimas coisas do casamento. Da vida sexual não era mais capaz de lembrar. Lembrava da lista do mercado. Lembrava de levar o lixo, de pagar as contas e até de dar água e ração para o cachorro. É, realmente eu estava enlouquecendo. 
Hoje fico rindo por dentro quando alguém atende o telefone e fala com sua esposa:
- Oi amor. tudo bem? O que houve?
-Tudo bem. Você lembrou de comprar o leite João?
- Fiquei pegado aqui no trabalho. Infelizmente não tive tempo Cíntia.
- Pois é. E agora? Acabou o leite do seu filho.
- Você pode comprar Cintia?
- Mas você já está na rua, não custa nada.
- Tá amor amor. Eu me viro.
       Tá bom porra nenhuma. Tá uma merda. Você tá fudido. Vai ficar resmungando sozinho. Se chegar em casa sem a porra do leite, vai ter de se contentar com uma punheta no banheiro ou com os comprimidos azuis. Ou os dois. Se der sorte ela não vai estar te esperando em casa com aquela camisola de bichinho e com aquela maldita calcinha creme. 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A ÚLTIMA GOTA

Como pensei em você hoje.
Como queria poder compartilhar minha alegria com você.
Mas lembrei que não devo mexer em uma ferida
Que ainda não cicatrizou.
Pode ser que agora você esteja deitada.
Abraçada com outro corpo que não é o meu.
Pode ser que ele esteja te fazendo carinho
Que só eu achei que sabia dar.
Toda vez que vejo seu rosto
Me dá uma enorme alegria.
Me faz lembrar de tudo que vivemos.
Da gente abraçado, sentados na areia,
olhando o luar.
Da gente dividindo a última gota,
da bebida que escolhemos juntos.
Repartindo o último pedaço do nosso jantar.
Pode ser que agora  a última gota não exista.
Pode ser que o último pedaço esteja em outra boca.
Mas quando imagino seu sorriso,
esqueço dos outros,
esqueço de tudo.
Me lembro de tudo que fizemos e que jamais esquecerei.
Me lembro de cada toque  e carinho.
De cada abraço apertado.
Das suas costas coladas no meu peito.
Do ventilador secando nosso corpo.
E do lençol nos cobrindo no insano calor de Janeiro.
Como pensei em você hoje.
Como sinto sua falta.
Queria compartilhar tanta coisa.
Mas não posso e nem devo lhe causar mais dor.
Não quero pensar que  a cada verso lido,
suas lágrimas escorram,
e seus pensamentos se voltem para nós.
Porque nós não existimos mais um para o outro.
Porque agora só existimos em nossa lembrança.
Das nossas noites quentes de verão.
Dos nossos sonhos.
E do nosso amor que sei que um dia vai voltar.
Como aquela lua.
Aquela mesma que víamos sentados na areia.
Escutando as batidas da onda do mar.


Guga Ribeiro

domingo, 14 de janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O MELHOR CAFÉ DA CIDADE

       A maior parte do ano esse apartamento passou vazio. Aluguei em Setembro. Nem pude comemorar direito o aniversário de minha filha. Em pouco tempo comprei mobília usada. Já tenho até máquina de lavar. A cama ganhei de presente.  E que belo presente. Só me falta a vitrola pra escutar meus velhos discos de rock. As baratas já conseguiram seu espaço durante o recesso noturno. O vinho já não é mais tão barato quanto antes.  E ainda posso me dar ao luxo de andar nú até o meio dia. Hora em que o vizinho do prédio da frente chega ao escritório para trabalhar.                          Ademais não tenho muita rotina. Não tenho sido metódico, apenas me importo em jogar o lixo fora. Costumo sair as sextas pra beber sozinho. Parei de beber durante a semana. Pelo menos até receber alta do meu tratamento.  Cansei de ir a praia. Vou ao cinema, porque não pago e fica a duas quadras do meu quarto. Tenho um grande orgulho.  Nunca fiz sequer um arroz ou feijão.  Nunca fiz nada para almoçar ou jantar que não fosse comprado ou aquecido no forno de microondas. Não me orgulho da louça.  Também não me orgulho do cheiro de banheiro de botequim. Procuro manter a roupa de cama limpa e as toalhas também.  Jamais deixei de fazer um bom café.  Ao menos isso. O melhor café da cidade. 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

ÚLTIMO BEIJO

O último beijo do ano foi você quem me deu.
A última língua que encostou na minha foi a sua.
Foi o seu perfume que ficou na minha camisa pela última vez.
Foi o seu sorriso que eu levei quando você me deixou no aeroporto.
E de nada adiantaria se não te amasse.
Nada importaria se as últimas coisas que fizesse em vida não fossem com você.
Porque acontece alguma coisa muito estranha quando te olho.
Existe alguma coisa que ninguém jamais vai conseguir explicar quando seguro sua mão.
Quando me vejo perdido e sem direção.
Por só conseguir enxergar você.
Por só conseguir amar você.
Meu peito se enche de um ar diferente.
E suspiro pensando em como você é importante para mim.
E não me importa se tudo não for recíproco.
Não me importa o que ninguém pensa.
Porque ninguém jamais será capaz de entender.
O quanto eu te amo.

Guga Ribeiro