segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ETTA JAMES




Reflexão nº 1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

    Murilo Mendes 



Gilda

Não ponha o nome de Gilda
na sua filha, coitada,
Se tem filha pra nascer
Ou filha pra batisar.
Minha mãe se chama Gilda,
Não se casou com meu pai.
Sempre lhe sobra desgraça,
Não tem tempo de escolher.
Também eu me chamo Gilda,
E, pra dizer a verdade
Sou pouco mais infeliz.
Sou menos do que mulher,
Sou uma mulher qualquer.
Ando à-toa pelo mundo.
Sem força pra me matar.
Minha filha é também Gilda,
Pro costume não perder
É casada com o espelho
E amigada com o José.
Qualquer dia Gilda foge
Ou se mata em Paquetá
Com José ou sem José.
Já comprei lenço de renda
Pra chorar com mais apuro
E aos jornais telefonei.
Se Gilda enfim não morrer,
Se Gilda tiver uma filha
Não põe o nome de Gilda,
Na menina, que não deixo.
Quem ganha o nome de Gilda
Vira Gilda sem querer.
Não ponha o nome de Gilda
No corpo de uma mulher.

Murilo Mendes 








Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade

O sonho
Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.
Clarice Lispector
Ode ao Burguês
Eu insulto o burgês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar… _ Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

Mário de Andrade

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Manuel Bandeira

Dicotomia propriamente dita


Dia a dia na cidade,
à procura de um destino
a procura de um trabalho.
Tragado pela insanidade.
Onde o ministério da saúde adverte:
Quem fuma viaja pra terra de Belmonte
e que ser livre é questão de bom senso.
No raspa-raspa da marmita requentada.
No roça-roça do trem lotado.
E a sigla C.V no pé do morro.

Dia a  dia no inferno,
à procura de crack
à procura de um otário.
Tragado pela maldade.
Onde  a polícia adverte:
bandido bom é bandido morto,
e que livre é marca de cigarro.
No clack-clack da escopeta esquentada.
No bate-bate do rabecão lotado.
E a sigla IML no dedão do pé.

Dia a  dia no céu,
à procura de consumo
à procura de nada.
Tragado pelo toboágua.
Onde o ministério da saúde adverte:
Quem fuma charuto cubano viaja pra Europa uma vez por ano,
e que ser livre é questão de dinheiro no bolso.
No tim-tim da taça de champanhe gelada.
No bom dia madame! do carango importado.
E a sigla BR na placa do carro.

Dia a dia na vida,
à procura de uma resposta,
à procura de uma luz.
Tragado pela mediocridade.
Onde o mundo adverte:
Milhares de pessoas morrem de fome por ano,
e que ser livre é desencarnar.
No blém-blém do sino da igreja defumada
no chora-chora do dia do enterro
E a palavra aqui jaz Esperança da Silva na catacumba.


Gustavo R. Alves




Talvez

O ano novo é daqui a pouco
E ainda não fiz as malas.
Não posso esquecer o relógio,
nem tampouco as horas
que não vejo passar.
As vezes,
quando estou a seu lado.

Fiz as malas
e não disse adeus
Dei as costas.

O ano novo é daqui a pouco.
Vou continuar aqui, na minha nova casa.
Junto com a sujeira,
com os insetos
 e com o vinho barato que comprei.

Talvez você venha.
Talvez você me entenda
 e não me castigue
nem me condene
Talvez.


Fucken Crazy

XXX

Não se passa, meu bem, na noite  e dia
Uma hora só, que a mísera lembrança
Te não tenha presente na mudança,
que fez, para meu mal,minha alegria.

Mil imagens debuxa  a fantasia,
Com que mais me atormenta  e mais me cansa
pois se tão longe estou de uma esperança
que alivio pode dar-me esta porfia!

Tirano foi comigo o fado ingrato;
Que crendo, em te roubar, pouca vitória,
me deixou pra sempre o teu retrato:

Eu me alegrara da passada glória,
Se quando me faltou teu doce trato,
me faltara também dele  a memória.


Cláudio Manoel da Costa

Angústia

Angústia


Tudo  é tão silêncio
palavras curtas, frases secas.
Tudo indo mais ou menos,
mais pra menos.

Enquanto o dia vai passando,
enquanto a angústia perseguir,
tudo o que quero
é tão distante,
é tão confuso. 

Eu sei que é diferente.
Que o novo sempre assusta.
Mas precisamos chegar ao final da prova,
mesmo cansados,
mesmo longes. 

Sei que não existirão vencedores,
sei que não existirão derrotados, 
apenas abandonados,
sem champanhes e sem fotos em jornais. 



Gustavo R. Alves

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Incompatibilidade de Gênios


Eu Quero me libertar

Eu Quero me libertar
Eu Quero me libertar
Eu Quero me libertar das SUAS Mentiras
Voce e Tao do auto-Suficiente, Eu Localidade: Não Preciso de Voce
Eu tenho Que me libertar
Deus SABE, Deus SABE Que eu Quero Ser Livre

Eu me apaixonei
Eu me apaixonei Pela Primeira Vez
E Dessa Vez Eu Sei Que É Verdade
Eu me apaixonei
Deus SABE, Deus SABE Que eu me apaixonei

E Estranho, mas É Verdade, sim
Eu Localidade: Não Consigo Superar uma Maneira Que Voce me ama Como VOCE FAZ
Mas eu tenho Que ter Certeza
When eu Sair POR aquela porta
Oh Como eu Quero Ser livre, bebê
Oh Como eu Quero Ser Livre
Oh Como eu Quero Ser Livre

Mas a Vida continua
Localidade: Não Consigo me acostumar a Viver sem, Viver SEM
Viver SEM VOCE Do Meu Lado
Eu Localidade: Não Quero Viver Sozinho, hey
Deus SABE, tenho Que Fazer ISSO não Meu Proprio
Entao, querida, voce ve de: Não
Eu tenho Que me libertar

Eu tenho Que me libertar
Eu Quero Ser livre, sim
Eu Quero, Eu Quero, Eu Quero, livre eu Quero Ser


Eu Quero me libertar

Eu Quero me libertar
Eu Quero me libertar
Eu Quero me libertar das SUAS Mentiras
Voce e Tao fazer auto-Suficiente, eu Localidade: Não Preciso de Voce
Tenho Que me libertar
Deus SABE, SABE Deus Que Eu Quero me libertar

Eu me apaixonei
Eu me apaixonei Pela Primeira Vez
E Dessa Vez Eu Sei Que É Verdade
Eu me apaixonei, sim
Deus SABE, SABE Que Deus me apaixonei

E Estranho, mas É Verdade
Localidade: Não Posso passar POR CIMA Fazer Jeito Que Voce me ama
Mas tenho que naipes Certeza
Quando eu passar daquela porta
Oh Como eu Quero Ser Livre, Bebe
Oh Como eu Quero Ser Livre
Oh Como Eu Quero me libertar

Mas A Vida continua
Localidade: Não Posso me acostumar a Viver sem, Viver SEM
Viver SEM VOCE Do Meu Lado
Localidade: Não Quero Viver Sozinho, hey
Deus SABE, tenho Que Fazer ISSO Sozinho
Entao Bebê, Nao PODE ver?
Tenho Que me libertar

Tenho Que me libertar
Quero me libertar, sim
Eu Quero, Eu Quero, Eu Quero, Eu Quero me libertar



sexta-feira, 25 de abril de 2014

LABIRINTO


Tudo era como um cristal na estante.
Havia sentido em comer pela manha.
O violão, nem sempre afinado, ficava no canto da sala.
Pra de vez em quando tocarmos,
meia dúzia de músicas da legião.
Ouviamos o vinil da Tracy no seu velho gradiente doble deck.
Agora anda com olhar de sarcasmo,
Respira com ar de tédio.
Sei que se pudesse iria mergulhar em um poço de lava incandescente,
pra nada restar, apenas memórias.



É claro, nossa dor é sempre pior que a dos outros.
Nosso ódio parece infinito até chegar a primeira loja do shopping.
Tem no passado seus momentos de felicidade,
e no presente seus momentos de angústia  e depressão.
Nem todo dia acordamos felizes.
Nem toda manhã temos saco pra dizer bom dia.
Por que acha que o passado era bom e o presente uma merda?



Nessa corrida contra o tempo existem vários caminhos.
Cada ser escolhe o seu.
Cada ser nasce  e morre sozinho.
O passado nunca volta, o presente você muda e o futuro é a morte.
Só não culpe ninguém pela sua inércia.
Não culpe ninguém pelo seu sofrimento e infelicidade.
Vá a luta e siga o caminho que escolher.
Mesmo que eu não esteja mais no banco do motorista.



Fucken Crazy




quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nós não precisamos de educação


Homenagem aos professores

Não quero mais dormir


Não quero mais dormir
vendo noticias na TV
vendo as horas passando,
em paredes Autografadas,
em prisões silenciosas.

Não quero mais dormir
vendo caveiras em jornais
vendo vidas todos os dias
que não posso lembrar, nem conhecer.
Apenas tirar o sapato colado dos pés.

Não quero mais dormir
vendo meu sangue derramar
vendo meu corpo apodrecer
em salas herméticas
em quadros vazios.
Papo cabeça, cabeça de piru.
Penas esquentar o pão que dorme sozinho.

Não quero mais dormir
Nem quero sua opinião
Não preciso ver mais nada,
em lugar nenhum.
Apenas apague a luz
e feche a porta.


Fucken Crazy





Vento no Litoral


Novos Dias


Meu cristalino envelhece a cada dia.
As paisagens se repetem.
Os dias resplandescem em sombras.
A luz, através das pequenas frestas,
de nuvens cumulus-nimbus,
me aquece, quando preciso,
pela manhã.
Um cantinho ao sol,
É bom demais.
Ser capaz de amar,
melhor ainda.

Fucken Crazy