Uma das coisas que me recordo de quando era criança, era passar por um buraco em um muro que tinha no fim da Rua Carmo Neto, no bairro do Santo Cristo, e observar os trens passarem pelos trilhos da estação da Central do Brasil. A Central parecia um monumento gigantesco e as composições pareciam não ter fim.
E foi justamente lá, há aproximadamente cinquenta anos atrás, que o Presidente João Belchior Marques Goulart, conhecido popularmente como "Jango", fazia seu memorável discurso. Concentraram-se aproximadamente duzentas mil pessoas, margeadas por uma das principais artérias da cidade do Rio de Janeiro: a Avenida Presidente Vargas.
A escolha do local onde se realizaria o Comício das Reformas, não foi, de certo, aleatória. A atual edificação da Estação Central do Brasil, inaugurada em 1943, durante a gestão do então Presidente Getúlio Dornelles Vargas, possui um elevado grau de centralidade, reunindo os mais variados fluxos de pessoas oriundos de diversas partes da cidade.
Meu avô trabalhava no Ministério do Trabalho e sua função, entre outras, era servir café ao então Ministro João Goulart. Pelas poucas fotos que meu pai disse que viu, Jango, parecia ser um bom homem. Depois meu avô teve que queimar todas as fotos que tinha com ele. Pelo menos não precisou queimar os ternos que ganhará do futuro Presidente da República.
Em seu discurso, João, gaúcho de São Borja, assim como Getúlio, um de seus maiores gurus políticos, clamava pela Reforma Agrária, pela justa distribuição de renda, pelo fim da miséria e das desigualdades sociais em nosso país. Eleito democraticamente e deposto arbitrariamente, Jango não conseguiu resistir ao golpe.
Infelizmente, é exatamente isso o que hoje muitas pessoas comemoram no Brasil: o fim da democracia e a ascensão dos governos militares que se sucederam.
Depois que passava pelo buraco do muro, ficava olhando as luzes da Central. Jogava bolinha de gude com meus amigos da Rua Carmo Neto. Minha mãe preparava a janta na cozinha do número 24. Colecionava maços de cigarro e adorava pegar o "cabritinho" para chegar a casa da minha avó.
A vida continuou. Jango foi embora. O Brasil virou verde-oliva e depois voltou a se colorir com as diretas. Na mesma Avenida a Portela era Campeã. Na mesma estação espero com minha marmita e meu telefone celular. Continuo acordando muito cedo e andando espremido no vagão. Continuo pobre e talvez nunca me aposente, como meu avô. Nada mudou. Feliz dia do Trabalho.
Gustavo Ribeiro Alves