sexta-feira, 30 de março de 2018

ROSA

Hoje eu vi uma senhora sair do elevador.
Ela era magra, tinha cabelos brancos,
Um sorriso sincero e um olhar bondoso
Devia ter 80 anos.
Eu pensei...
Poderia ser você.
Você poderia estar aqui com a gente.
Poderia ter visto seus netos crescerem.
E torcer comigo aos domingos,
Para o nosso time de coração.

Eu queria abraçá-la.
Queria segurar sua mão e atravessar a rua com você.
Como quando era criança.
E você sempre trazia uma lembrança para nós.
As vezes um chocolate...
As vezes amendoim torrado...
As vezes um brinquedo...
E as vezes nada...
Mas nada nunca era nada.
Não para você.
Que com um carinho sincero,
Com um abraço apertado,
Nos fazia dormir.. 
E lembrar de como a vida era boa.

Mas você se foi...
E agora nada mais restou.
A raiz foi arrancada.
E agora só restaram galhos e folhas.
Que estão secando com o tempo.
E que em breve irão morrer.

Toda vez que vou deitar,
Lembro dos seus últimos momentos aqui.
Lembro que não consegui chegar a tempo no hospital.
Lembro de você desfalecida nos meus braços.
Lembro de tudo... Toda noite.
E não consigo dormir.
Eu não consigo dormir.

Todos os dias vejo senhoras.
Que imagino ser você.
Fico parado olhando...
Querendo dizer.. Cheguei mãe.
Fico esperando você me acolher.

Não tenho mais nada.
Não tenho ninguém.
Queria viajar para o futuro.
Para pegar a cura do câncer.
Voltar ao passado.
E poder salvar você.
E aí então ...
Poderia te abraçar de novo.
Segurar sua mão.
E dizer que te amo.

Guga

segunda-feira, 26 de março de 2018

Plumbum

Nasci para ser sozinho.
Como cão sem dono em uma noite fria.
Sem jornal para aquecer as costelas famintas.
Sem osso para saborear poucos minutos de alegria.

Nasci para ser sozinho.
E imaginar dentro desse quarto escuro.
Que o mundo não é maior que nossa mente.
Sozinho em um convés de um transatlântico vazio.
Ou em uma praia cercada de Palmeiras e água beirando o azul piscina.
Sozinho como Crusoé.
Como Dante em um asilo de seu próprio inferno.

Nasci para ser sozinho.
No meio da multidão.
Entre festas, bares,  esquinas.
Entre carros, metrôs e avenidas.
De sinal em sinal.
De Janeiro à Dezembro.
Roto, torto, Lazarento.

Nasci para ser sozinho.
Para viver sem nenhum amor.
Para abraçar o par...
Do travesseiro que sobrou.
E ter somente uma xícara.
Somente um prato.
Uma taça de vinho.
Um pouco de água para beber no gargalo.

Nasci para ser sozinho.
Como um gato..
Que não tem dono mesmo.
Em cima de uma marquise.
Comendo as sobras.
Jogada dos apartamentos.
E depois lembrar...
Do veneno que puseram... não para ti.
Para seus inimigos, ratos.
Mas ninguém avisou.
Que esse chumbo pulverizado também serve...
para gatos...
Para cães...
Para homens...
Sozinhos.

Fucking Crazy






sexta-feira, 16 de março de 2018

HOMETOWN

Caminhando lentamente em sua cidade natal.
Eu sinto que não esqueci nada em casa.
Continuo andando como se o amanhã,
Fosse sombra de amendoeira.
Os carros passam em um ritmo de contemplação.
Com janelas abertas e olhares serenos.
Na grama verde posso deitar
Sentir o sol aquecer um coração cansado.
Esticar o corpo como um cachorro que acaba de acordar.
Dormir,sonhar e despertar com tudo no seu devido lugar.
Menos aquele casal bonito.
Que em algum momento evaporou.
Como gota d'agua em panela fervendo.
Percebi que aí... O tempo passa de uma forma diferente.
Que as esquinas tem nomes europeus.
E que todos param no sinal vermelho.
Mas ainda que o carpete seja diferente.
O amar é sempre amar.
Sem motivo, razão ou direção.

Caminhando lentamente nas ruas de Leminski,  Trevisan, Sil Barsi.
Lembro que tenho que voltar
Pra minha caixa em preto e branco.
Para o lugar em que só forasteiros param em sinal vermelho.
Em que as janelas ficam todas fechadas.
E os olhares sempre atentos.
Onde os parques são teias.
Repletos de aranhas carnívoras.
E nem as praias conseguem mais amenizar.
O calor assassino da minha cidade natal.
Mas o amor que sinto por você.
Ah... Esse amor...
Tá aqui....
Bem guardadinho.
Esperando a próxima chamada.

Guga Ribeiro

LUZ DOS OLHOS


quinta-feira, 15 de março de 2018

CÉU

No céu não tem carro.
Não tem relógio digital.
Não tem rede social.
Nem roupa de grife.

No céu não tem barão, nem baronesa.
Não tem Duque, nem Duquesa.
Nem colar de pérolas ou esmeraldas.
Não tem anel de ouro e nem pulseira de prata.

No céu não tem mansão.
Não tem cofre, nem caixa forte.
Não tem mordomo, nem empregados.
Não tem champanhe e nem caviar.

No céu não tem iate, nem campo de golfe.
Não tem coluna social, nem fotos em.jornal.
Não tem avião particular.
Nem putas de luxo.

No céu de todos os Deuses.
Não tem nada disso.
Então por que você quer ir para o céu?
Por que se ajoelha no altar pedindo perdão pelos seus pecados?

Vai para o inferno.
Se juntar com todos de sangue azul.
Vai para o inferno.
Subornar o Diabo.
Vai direto para o inferno.
Sem escala para o purgatório.
Com tudo que acumulou.

Deixa o céu para quem nunca teve nada.
Deixa o céu para quem tira a roupa do corpo para ajudar um irmão.
Deixa o céu para aquele que divide o único prato de comida com o próximo.
Para aquele que nunca se importou de dormir e sonhar debaixo do céu estrelado.
Para aquele que caminhou descalço.
E realmente compreendeu,
O verdadeiro legado.
Do mestre Jesus.

Guga Ribeiro

TU

Ninguém me disse que não.
Também não disse... Talvez.
E como uma onda que arremessa um homem.
Arremessa um ser.

Que me disse que o querer,
Surpreende um ser capaz.
De entender e gostar do que não convém.
De gostar daquilo que nos é permitido.

E assim vamos descobrir,
O que a luz não consegue alcançar.
O que ninguém me disse ter certeza.
O que nos decidimos gostar.

E eu gosto, como uma fruta fresca.
Como o sabor de um beijo seu.
Como aquilo que se diz.... faz... Ao vento.
Como uma lua de um padre ateu.
Como uma rosa que desabrochou,
E nem sequer me perguntou
Para onde devo seguir.
E ainda que os espinhos machuquem
Ferida que não cicatrizou.
Quero descobrir que antes de tudo.
Que antes de um por do sol.
Reste ao menos a sorte, a vida.
De quem sempre me imaginou.

Guga Ribeiro

sábado, 10 de março de 2018

EU MESMO

Há quanto tempo não sinto o cheiro desse ar.
Aquele cheiro que lembra os melhores momentos da infância.
De quando jogávamos bolinha de gude no quintal.
De quando parávamos no recreio da escola para lanchar.

Me remete a uma sensação de liberdade, descoberta.
A uma sensação de uma vida simples.
Onde o mais importante era ter com quem brincar.
Jogar bola, botão, pique esconde, bandeirinha, salada mista, pular carniça, polícia e ladrão.

As vezes me deparava com as prisões que os adultos construíam para si.
Que os impediam de caminhar para onde quisessem.
Que os impediam de ser quem realmente gostariam de ser.
E não entendia porque tudo passava a ser programado.
E que os sonhos jamais sairiam do papel.

Gostava do cheiro do café, do barulho da panela de pressão no fogão.
Gostava do rádio encostado na janela tocando os sucessos do momento.
Gostava de Zizi cantando "Perigo".
E me imaginava com a garota mais bonita da escola.
Dançando "spending my time" comigo.

Via Senna ganhar corridas no Domingo.
Ouvia o fla-flu na rádio.
Escutava Vinil e K7 no velho som da nacional.
E passava  horas na locadora de vídeo escolhendo os melhores filmes para o fim de semana.
Confesso que as vezes esquecia de rebobinar.

Que bom poder sentir o cheiro desse ar novamente.
Mesmo com you tubers, Wi-Fi, smartphones.
Mesmo com air-bag, refrigerante refil e Pablo Vitar.
Mesmo com todo esse inglês subversivo.
Posso respirar liberdade.
Fazer o que quiser.
Ser quem quiser.
Bem distante das prisões construídas para si.
Bem perto de onde o sol se põe e de onde o sol nasce.
Em qualquer lugar.
Rio de Janeiro, Curitiba, Canadá.
Longe da garota mais bonita da escola.
Junto com meu melhor amigo, meu fiel confidente, meu alento mais reconfortante: MYSELF.

Guga Ribeiro 10/03/2018.