terça-feira, 2 de julho de 2019

ORGASMOS


Gosto de orgasmos.
Suculentos, molhados.
Gosto de gemidos.
Altos, baixos, roucos.
Gosto de pés entrelaçados.
De bocas coladas e mãos agarradas.
Gosto de pele na pele.
De roçar de pêlo, de penetrar devagar e forte.
Gosto de entrar bem duro.
De sentir rasgar depois da glande e ir bem no fundo desse oceano.
Gosto de lamber, chupar, tocar.
Sentir o gosto animal sem reservas, sem pudores.
Lambuzar-me e ver seus olhos entreabertos  e suas pernas estremecidas.
Gosto de falar palavrão.
De dar palmadas em quem não se comportou direito.
Gosto de gozar.
De explodir dentro desse vulcão incandescente.
De deixar a lava branca escorrer pela borda.
Gosto de sentir o pulsar de sua xota depois do êxtase.
Da sua respiração ofegante, seus lábios secos e seu corpo desfalecido sobre o meu.
Gosto de orgasmos....

Guga Ribeiro



segunda-feira, 10 de junho de 2019

CADEIA ALIMENTAR

Não!!!!  
Os Leões não comem carniça. 
Que fique para as Hienas. 
A inocente coelhinha devorada por uma raposa insaciável. 
Viver embaixo da terra pode te proteger.  Mas como viver sem ver a luz?
Como viver na escuridão?
Viúvas negras assassinam seus varões. Abelhas rainhas assassinam seus zangões.
Que me resta se não aguardar ser vítima de um crime passional.
De uma picada mortal. 
Destas mulheres que não conseguem entender.
Que bicho que nasceu para ser livre....
Voa com as águias e nunca pousa em um ninho só.


Guga Ribeiro

sábado, 20 de abril de 2019

CENTRAL DO BRASIL

   Uma das coisas que me recordo de quando era criança, era passar por um buraco em um muro que tinha no fim da Rua Carmo Neto, no bairro do Santo Cristo, e observar os trens passarem pelos trilhos da estação da Central do Brasil. A Central parecia um monumento gigantesco e as composições pareciam não ter fim.
     E foi justamente lá, há aproximadamente cinquenta anos atrás, que o Presidente João Belchior Marques Goulart, conhecido popularmente como "Jango", fazia seu memorável discurso. Concentraram-se aproximadamente duzentas mil pessoas, margeadas por uma das principais artérias da cidade do Rio de Janeiro: a Avenida Presidente Vargas.
      A escolha do local onde se realizaria o Comício das Reformas, não foi, de certo, aleatória. A atual edificação da Estação Central do Brasil, inaugurada em 1943, durante a gestão do então Presidente Getúlio Dornelles Vargas, possui um elevado grau de centralidade, reunindo os mais variados fluxos de pessoas oriundos de diversas partes da cidade.  
          Meu avô trabalhava no Ministério do Trabalho e sua função, entre outras, era servir café ao então Ministro João Goulart. Pelas poucas fotos que meu pai disse que viu, Jango, parecia ser um bom homem. Depois meu avô teve que queimar todas as fotos que tinha com ele. Pelo menos não precisou queimar os ternos que ganhará do futuro Presidente da República. 
          Em seu discurso, João,  gaúcho de São Borja, assim como Getúlio, um de seus maiores gurus políticos, clamava pela Reforma Agrária, pela justa distribuição de renda, pelo  fim da miséria e das desigualdades sociais em nosso país. Eleito democraticamente e deposto arbitrariamente, Jango não conseguiu resistir ao golpe.
          Infelizmente, é exatamente isso o que hoje muitas pessoas comemoram no Brasil: o fim da democracia e a ascensão dos governos militares que se sucederam.
          Depois que passava pelo buraco do muro, ficava olhando as luzes da Central. Jogava bolinha de gude com meus amigos da Rua Carmo Neto. Minha mãe preparava a janta na cozinha do número 24. Colecionava maços de cigarro e adorava pegar o "cabritinho" para chegar a casa da minha avó.
          A vida continuou. Jango foi embora. O Brasil virou verde-oliva e depois voltou a se colorir com as diretas. Na mesma Avenida a Portela era Campeã. Na mesma estação espero com minha marmita e meu telefone celular. Continuo acordando muito cedo e andando espremido no vagão. Continuo pobre e talvez nunca me aposente, como meu avô. Nada mudou. Feliz dia do Trabalho.


Gustavo Ribeiro Alves

       
  

quinta-feira, 14 de março de 2019

REMINGTON 22

          Não sei por onde ficou aquele conto. Infelizmente não cheguei a imprimir. Era o primeiro, uma espécie de desvirginamento prosáico. Se fosse feito nas antigas Remingtons nada disso teria acontecido. Já estaria pronto, ainda que inacabado.
          Por isso que sou velho, gosto de coisas antigas. Móveis, roupas, fachadas e comportamentos. Havia muito mais elegância. Uma fotografia de um escritor com seu suspensório, cigarro caído no canto da boca, olhando de soslaio enquanto datilografa alguma coisa em seu escritório em preto e branco. Havia mais poesia e glamour. Nada comparado a essa necessidade vulcânica de aparecer a qualquer custo, com biquínis minúsculos ou ostentando badulaques que mais parecem fantasias de agremiações carnavalescas.

          O mais interessante de tudo é que antes da imagem havia o conteúdo. E, normalmente, o conteúdo era muito bom, altamente expressivo e inovador. Não havia necessidade de diplomas ou títulos para que alguma coisa bem escrita fosse apresentada nos jornais da época ou publicado nos folhetins matutinos. Havia bom gosto, inspiração e um toque de genialidade.
          O fato é que a necessidade de consumo aumentou. A demanda por ter começou a se sobrepor, consideravelmente, a demanda por ser. O tempo passou a ganhar uma outra conotação. O imediatismo passou a figurar como questão de ordem em nosso tempo e o instantâneo das redes sociais não permitem nem sequer refletir sobre o que seria ou não interessante divulgar.
          Criamos com isso um abismo qualitativo. Produzimos móveis vagabundos, equipamentos descartáveis, música medíocre, comida congelada, roupas... Que roupas? Produzimos androgenia sem sentido. Criam-se novos paradigmas com o fito de se tornar diferente e com isso alcançar os holofotes midiásticos. Demitem-se intelectuais, escritores e musicistas. Contratam-se falastrões egocêntricos e maniqueístas, fofoqueiros e gente que canta com o corpo, porque se fosse pela voz, não passariam pala porta do programa de calouros da rádio nacional.
          É isso que vivemos hoje. Feministas sustentadas por pais machistas. Comunistas que vestem Prada. Presidente militar que não dá golpe. Jornalistas que nunca ouviram falar no " Pasquim". Artistas que expõe batata cravejada de pregos.
          Saudade do tempo que não vivi. Do tempo em que os Nelsons cantavam e escreviam. Do tempo em que os móveis resistiam a mudanças. Do tempo em que se esperava uma fotografia de família ficar pronta, tirada da antiga máquina lambe-lambe.

Gustavo Ribeiro Alves
       

terça-feira, 12 de março de 2019

NINGUÉM

Até que tentei ser  honesto.
Mas meu caráter não permitiu.
Não permitiu que eu deixasse de comer a vizinha casada.
Não permitiu que eu não avançasse o sinal vermelho.
Não permitiu que eu não desejasse a morte de alguém.

Eu bem que tentei...
Rezava o pai nosso e dava bom dia para as velhinhas.
Não jogava lixo no chão e usava cinto de segurança.
Trepava de camisinha e não fazia juras de amor.
Mas meu caráter não permitiu.
Não permitiu nada disso.
Foi tudo uma tentativa falida
De enganar o Diabo e encontrar o reino dos céus.

Um cafajeste sempre será um cafajeste.
Um mal caráter sempre será um mal caráter.
Uma puta sempre será uma puta.
E um otário sempre será um otário.

E nada disso vai ser relevante.
Porque todos serão esquecidos.
Enterrados ou queimados.
No céu ou no inferno.
Bons ou maus.
Putas ou Santas.
Mocinho ou bandido.
Ninguém passará pela eternidade.
Ninguém...

Guga Ribeiro

VIDA

Somos altamente frágeis.
Brincamos todos os dias com a morte.
Somos altamente incapazes,
De rir em funerais.

Tiro, escrutínio, corredor.
Pano sujo atrás da porta.
Privada suja de rejeitos humanos.

Corda episcopal, "libertas quase serás  tamem".
Pezinhos sujos de  pedra sabão.
Tragos obsessivos, sermão da montanha.
Lacre pulverizado de lendas inúteis.
Unicórnios patéticos olhando a multidão.

Laço, domino, acuo, persigo.
Assim mesmo, como um doberman insaciável.
Lascivo, compulsivo, engraçado.
Nem tanto quanto pensam.
Melindrado, escabriado, cão sem dono.
Sem coleira, sem rumo.
Carne de pescoço mesmo.
Cão raivoso, cão sensível.
Mundo cão.

E assim terminamos de uma vez por todas.
O nosso existir.
Os nossos medos, dúvidas e inseguranças.
Os nossos prazeres pecaminosos.
Nossos ais, gemidos, gritos, sussurros, escárnios, enfim...
De tudo aquilo que convencionamos chamar de...
Vida.

Guga Ribeiro

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

DOIDIVANA


Nossa Cultura... Nossa Alma


APELOS

Um dia hei de escutar meu coração.
E entender que o que disse foi mentira.
Um dia o mundo vai saber que seu nome.
Me feristes com um passado sem perdão.

E agora volta a me tentar com seus apelos.
Suas maldades de mulher sem coração.
Se as mulheres não tivessem sentimentos.
Do que seria dos seus planos sem paixão.

Eu vou voltar no mesmo dia que chegar.
Se por acaso avistar meu velho calção.
Lembre que um dia a tempestade sempre passa.
Mas as dores sempre ficam guardadas no violão.

Ontem chorava relembrando os bons momentos.
De quando ria enquanto andava no corredor .
Sua voz rouca, seu cabelo embaraçado.
Tomando um trago e brindando nosso amor.

Graças a Deus já não sofro tais melindres.
De uma mulher que arrancou meu coração.
E que hoje insatisfeita vem dizendo.
Que o amor nada mais é do que ilusão.

Guga Ribeiro

NOITES VAZIAS

Quando abro a janela da tua casa,
Vejo a chuva cair sem emoção.
Vejo as plantas que eram lindas calmaria,
E hoje não passam de folhas secas no portão.

Um dia desses você disse que me amava.
Não entendia muito bem a implicação.
De que o amor nada vale enquanto dura.
E que seu valor só existe sem razão.

Enquanto durmo não esqueço do seu rosto.
Nem teu sorriso que revela ingratidão.
Sua alegria escondida entre seus olhos.
E sua dor agarrada ao coração.

Nunca te disse que eu também te amava muito.
Nunca te disse que por ti dei meu amor.
Que em meus sonhos só você que aparece.
Me dizendo o quanto doi a sua dor.

Eu te contei o melhor de meus segredos.
Do que vivemos e que um dia teve um fim.
Guardo no peito a esperança tão tardia.
De que um dia seu amor será por mim.

Muito Obrigado pelas noites que passamos.
E me desculpe pelos dias que cheguei.
Embriagado nas noites tão vazias.
Desnorteado com as ilusões que eu criei.

Se tu soubesses que de nada valeria.
Que de tudo que fiz nada restou.
Só a memória daquelas noites vazias.
Em que sonhava sob a luz do meu grande amor.

Guga Ribeiro

domingo, 13 de janeiro de 2019

MENINOS

Então onde eu deito?
Se no meio da cama vejo um menino de pé rude, mão forte e coração de ouro.
Meninos, moleques, levados, descalços...
Em ladeiras tupi-guaranis.
Em viela maloca favela.
Nas ruas do subúrbio e da zona sul.
Sonham com um mundo lindo e sereno.
Sonham acordados em dias de domingo.
A mãe faz farofa para o almoço.
O pai bebe um copo de cerveja na mesa.
Menino sonha e aprende com a vida.
Menino, moleque...
Me ensina seus truques faceiros.
Me ensina a sonhar e amar.

Guga Ribeiro