quinta-feira, 14 de março de 2019

REMINGTON 22

          Não sei por onde ficou aquele conto. Infelizmente não cheguei a imprimir. Era o primeiro, uma espécie de desvirginamento prosáico. Se fosse feito nas antigas Remingtons nada disso teria acontecido. Já estaria pronto, ainda que inacabado.
          Por isso que sou velho, gosto de coisas antigas. Móveis, roupas, fachadas e comportamentos. Havia muito mais elegância. Uma fotografia de um escritor com seu suspensório, cigarro caído no canto da boca, olhando de soslaio enquanto datilografa alguma coisa em seu escritório em preto e branco. Havia mais poesia e glamour. Nada comparado a essa necessidade vulcânica de aparecer a qualquer custo, com biquínis minúsculos ou ostentando badulaques que mais parecem fantasias de agremiações carnavalescas.

          O mais interessante de tudo é que antes da imagem havia o conteúdo. E, normalmente, o conteúdo era muito bom, altamente expressivo e inovador. Não havia necessidade de diplomas ou títulos para que alguma coisa bem escrita fosse apresentada nos jornais da época ou publicado nos folhetins matutinos. Havia bom gosto, inspiração e um toque de genialidade.
          O fato é que a necessidade de consumo aumentou. A demanda por ter começou a se sobrepor, consideravelmente, a demanda por ser. O tempo passou a ganhar uma outra conotação. O imediatismo passou a figurar como questão de ordem em nosso tempo e o instantâneo das redes sociais não permitem nem sequer refletir sobre o que seria ou não interessante divulgar.
          Criamos com isso um abismo qualitativo. Produzimos móveis vagabundos, equipamentos descartáveis, música medíocre, comida congelada, roupas... Que roupas? Produzimos androgenia sem sentido. Criam-se novos paradigmas com o fito de se tornar diferente e com isso alcançar os holofotes midiásticos. Demitem-se intelectuais, escritores e musicistas. Contratam-se falastrões egocêntricos e maniqueístas, fofoqueiros e gente que canta com o corpo, porque se fosse pela voz, não passariam pala porta do programa de calouros da rádio nacional.
          É isso que vivemos hoje. Feministas sustentadas por pais machistas. Comunistas que vestem Prada. Presidente militar que não dá golpe. Jornalistas que nunca ouviram falar no " Pasquim". Artistas que expõe batata cravejada de pregos.
          Saudade do tempo que não vivi. Do tempo em que os Nelsons cantavam e escreviam. Do tempo em que os móveis resistiam a mudanças. Do tempo em que se esperava uma fotografia de família ficar pronta, tirada da antiga máquina lambe-lambe.

Gustavo Ribeiro Alves
       

terça-feira, 12 de março de 2019

NINGUÉM

Até que tentei ser  honesto.
Mas meu caráter não permitiu.
Não permitiu que eu deixasse de comer a vizinha casada.
Não permitiu que eu não avançasse o sinal vermelho.
Não permitiu que eu não desejasse a morte de alguém.

Eu bem que tentei...
Rezava o pai nosso e dava bom dia para as velhinhas.
Não jogava lixo no chão e usava cinto de segurança.
Trepava de camisinha e não fazia juras de amor.
Mas meu caráter não permitiu.
Não permitiu nada disso.
Foi tudo uma tentativa falida
De enganar o Diabo e encontrar o reino dos céus.

Um cafajeste sempre será um cafajeste.
Um mal caráter sempre será um mal caráter.
Uma puta sempre será uma puta.
E um otário sempre será um otário.

E nada disso vai ser relevante.
Porque todos serão esquecidos.
Enterrados ou queimados.
No céu ou no inferno.
Bons ou maus.
Putas ou Santas.
Mocinho ou bandido.
Ninguém passará pela eternidade.
Ninguém...

Guga Ribeiro

VIDA

Somos altamente frágeis.
Brincamos todos os dias com a morte.
Somos altamente incapazes,
De rir em funerais.

Tiro, escrutínio, corredor.
Pano sujo atrás da porta.
Privada suja de rejeitos humanos.

Corda episcopal, "libertas quase serás  tamem".
Pezinhos sujos de  pedra sabão.
Tragos obsessivos, sermão da montanha.
Lacre pulverizado de lendas inúteis.
Unicórnios patéticos olhando a multidão.

Laço, domino, acuo, persigo.
Assim mesmo, como um doberman insaciável.
Lascivo, compulsivo, engraçado.
Nem tanto quanto pensam.
Melindrado, escabriado, cão sem dono.
Sem coleira, sem rumo.
Carne de pescoço mesmo.
Cão raivoso, cão sensível.
Mundo cão.

E assim terminamos de uma vez por todas.
O nosso existir.
Os nossos medos, dúvidas e inseguranças.
Os nossos prazeres pecaminosos.
Nossos ais, gemidos, gritos, sussurros, escárnios, enfim...
De tudo aquilo que convencionamos chamar de...
Vida.

Guga Ribeiro