Em 1988, aos nove anos de idade, o Aedes Aegyptis, principal vetor para a transmissão da Dengue, me acertou em cheio. Muito provavelmente deve ter me picado durante o intervalo de alguma partida de futebol, enquanto brincava de pique esconde ou quando soltava pipa nas ruas da periferia de minha infância.
À época, não se sabia ao certo as consequências desta doença. O que se sabia era de que se tratava de algo que "derrubava" a pessoa, como se um caminhão a tivessse atropelado. A Dengue foi, literalmente, uma febre no verão de 1988. Os carros de fumacê passavam nas ruas, impregnando-as daquele cheiro amargo. Os agentes da extinta SUCAM (Superintendência de Campanhas de Saùde Pública) fiscalizavam as casas, espalhando seus saquinhos de granulado branco em quase todos os cômodos.
Durante os anos que se sucederam, após o caos da epidemia, o Estado procurou conter o avanço no número de contágios, dando ênfase na profilaxia como tentativa de solução, fato este não comprovado pelas estatísticas. Passamos a ter de conviver com aquele caricato pernilongo negro de listras brancas nas patas, em nossos lares.
Em contraponto àquela epidemia, vimos surgir este ano, um novo vírus que alterou profundamente a organização da vida humana. O Coronavírus ou Covid-19, como alguns preferem chamar, emigrou da cidade de Wuhan na China , para centenas de países no mundo. Imerso a uma histeria generalizada, tendo como pano de fundo discussões de cunho político e ideológico, essa doença vem contaminando diversas pessoas e, infelizmente, vitimando milhares.
Assim como o surto da dengue no ano de 1988 passou, o surto de Covid-19 vai passar. Assim como durante o surto da Dengue muitas pessoas morreram, o surto do novo Coronavírus também tem deixado muitas baixas. Assim como, mesmo após o surto, a Dengue continua a existir, esta nova moléstia também vai continuar a existir. É mais uma doença para o rol deste mundo doente.
Com ou sem vacina, com ou sem máscara, com ou sem camisinha, a vida na terra vai continuar. O homem continuará com seu egoismo e com sua ganância. O sol irá continuar brilhando todos os dias, para todos os seres do planeta. E quando chegar a hora de voltarmos a ser apenas átomos, diferente dos vírus, restará apenas o amor, esse mesmo que nos contamina e por nós é contaminado.
Gustavo Ribeiro Alves
Um comentário:
Tá virando cronista,né?
Muito bom texto!!
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