sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FRONTAL

       Nunca tomei tanto ansiolítico na minha vida quanto naquele inverno de 2013. Estava quase apagando debaixo do chuveiro. Sentia a água bater na minha nuca e minha bunda encostar no azulejo. Ane disse:
- O que está fazendo ai cara? Você não pode ficar tomando esses remédios por conta própria.
- Estou tomando banho. O médico receitou para você. Se vale para você, vale para mim também. Com a receita que você me deu só conseguiria comprar duas caixas. Comprei quatro. Duas para mim e duas para você. Tenho meus meios.
       Minha língua enrolava enquanto eu falava. Queria ficar ali para sempre. 
- Vamos, levanta logo daí. Tá ficando maluco? - Disse Ane.
-Tudo bem, estou saindo.
      Sabia que ela não iria me ajudar a levantar. Sabia que ela não me esticaria as mãos e me puxaria com força para me levantar do chão.Não me entregaria uma toalha seca e nem me daria um abraço, falando palavras de consolo no meu ouvido. Sabia disso. Com muito esforço consegui me levantar sozinho. Desliguei o chuveiro e coloquei uma bermuda.
      Nessa época quase não escrevia. Não fazia poesias. Coisa nenhuma. Meu trabalho era suficientemente estressante para isso. Passava quase 24 horas acordado. Quando conseguia descansar, deitava por umas duas horas em um maldito colchão com capa de plastico. Suava e meu corpo colava no colchão. Colegas de quarto roncavam e peidavam no dormitório. Um verdadeiro inferno. Já estava nisso havia quatro anos. Sabia que eu estava pirando. Nenhum ser humano normal consegue trabalhar 24 horas, ainda mais em uma delegacia de polícia. Ladrões, viciados, traficantes, estupradores, valentões, homicídas, homens traídos, mulheres mal amadas, loucos, enfim... tudo que existe de pior na sociedade. E era justamente com isso que eu tinha de lidar durante 24 horas do dia. Não podia estar normal. Precisava de meus comprimidos azuis. Precisava da minha caixa de cerveja. Meu casamento estava por um fio e Ane estava realmente insuportável.     
      Sempre amei minha esposa. Mas realmente sinto falta de pouquíssimas coisas do casamento. Da vida sexual não era mais capaz de lembrar. Lembrava da lista do mercado. Lembrava de levar o lixo, de pagar as contas e até de dar água e ração para o cachorro. É, realmente eu estava enlouquecendo. 
Hoje fico rindo por dentro quando alguém atende o telefone e fala com sua esposa:
- Oi amor. tudo bem? O que houve?
-Tudo bem. Você lembrou de comprar o leite João?
- Fiquei pegado aqui no trabalho. Infelizmente não tive tempo Cíntia.
- Pois é. E agora? Acabou o leite do seu filho.
- Você pode comprar Cintia?
- Mas você já está na rua, não custa nada.
- Tá amor amor. Eu me viro.
       Tá bom porra nenhuma. Tá uma merda. Você tá fudido. Vai ficar resmungando sozinho. Se chegar em casa sem a porra do leite, vai ter de se contentar com uma punheta no banheiro ou com os comprimidos azuis. Ou os dois. Se der sorte ela não vai estar te esperando em casa com aquela camisola de bichinho e com aquela maldita calcinha creme. 

3 comentários:

Unknown disse...

Tá mesmo! Até parece que é só isso!
A Ani é uma escrota.... uma monstra!....

Fucken Crazy disse...

A Ane é a mulher que eu amo!!!

Sil Barsi disse...

Para toda história existem 3 versões, a minha a tua e a verdade!
E nessa historinha triste estão faltando alguns pontos de vistas e algumas correções, enfim.

E escrota é aquela pessoa que não sabe nada da vida de ninguém e ainda assim teima em dar palpite onde não é chamada. Não me conhece, não paga meus boletos então se equivocou grandemente com o comentário infeliz e recalcado.
E "Ani" é só para os íntimos e eu nunca te vi mais feia, nem te dou essas intimidades.
Agora recolha-se a sua insignificância e some. Obrigada e tchau.