sábado, 11 de novembro de 2017

VOCÊ É LOUCA

I



          Eu disse que ela é louca. Ela disse que louco era eu. A temperatura do ar em nada interferiu. Primeiro  tomávamos as pilulas azuis, junto com uma boa dose de cerveja barata. Ficava tudo bem. Ela colocava um desses filmes idiotas e comerciais de suspense. Eu gostava de ficar do seu lado. Mas ela não era daquelas que te segura com medo das cenas em que  a criança gira  a cabeça. Não! Acho que ela arrancaria  a cabeça da criança, colocaria sal grosso e botaria sete velas do lado.  Como que para mostrar ao diretor que aquilo não a assustava. As vezes faziamos amor na sala, no sofá, depois no chão. Como dois velocistas de cem metros rasos. Espreitando o momento em que Peter Pan fugiria do quarto de pijama  e fosse procurar alento em outro aposento.

       Eu dizia que ela era louca. Ela dizia que o louco era eu. O ar estava muito quente, típico do maldito verão daqui. Gostavamos de encher a cara, ao som do mais autêntico rock n roll. Depois caiamos na porrada, nos ofendiamos por motivos fúteis. Motivos que frequentemente eu esquecia, mas ela não. Não havia deixado de ser mulher. Por mais que estivesses com duas luvas cada, lutando em categorias diferentes. Nunca deixou de ser uma fêmea, uma fêmea alfa. E como era bom poder dominar uma fêmea alfa. Sentir toda aquela força, todo aquele poder, toda aquela superioridade, subjugada através de dois corpos nús. Com meu peso sobre seu corpo, com meu cheiro em sua pele e com meu sêmen embrenhado em seu sexo.

      Ela era louca mesmo. Certa vez brigamos feio. Estavamos completamente bêbados, como de costume. Apaguei no sofá da sala  e  ainda que pudesse ouvir seus xingamentos, não possuia força para me levantar. Acordei no dia seguinte. Percebi que ela estava dormindo tranquilamente em nossa cama. Nosso filho já estava acordado vendo seu desenho no quarto. Pensei: " Está tudo bem". Então sai para comprar pão  e uma coca-cola para a ressaca. Foi  então que pude ver nosso carro estacionado perfeitamente e com uma parte da frente completamente destruida. Eu disse: " Puta que o pariu. Caralho. O que essa filha da puta aprontou dessa vez? Ela destruiu o carro".

       Quando digo que ela é louca não é brincadeira. Ela não tinha habilitação, mas até aí não importa, porque eu também não tenho mais. O que importa é que ela não sabia dirigir. Era uma suicida em potencial, uma espécie de Kurt Kobain sem heroína. Até tentei ensiná-la  a dirigir. Tive muita paciência. Moravamos no interior de uma pequena cidade relativamente perto da capital. Sabia que naquelas ruas de barro, naquele semi deserto marítimo as coisas poderiam ser controladas. Pensei que o máximo que poderia acontecer era que ela atropelasse um cachorro distraído, quebrasse a caixa de marcha do velho carro ou até que xingasse , batesse no volante  e desistisse. Ela não é daquelas que desistem de uma coisa facilmente. Estava feliz, ela conseguia fazer o carro andar, embora sua mão estivesse dura como concreto, ela conseguia fazer uma curva sutilmente sem que o carro morresse. "Já está bom por hoje"  - Eu disse. Fato que ela concordou de pronto. Sabe aquele jogo que parece ganho, que a torcida adversária já está indo embora do estádio e que aos 45 minutos do segundo tempo você leva um gol inesperado, dentro do seu próprio estádio. O portão de entrada da casa se despedaçou. Embora de uma madeira forte, foi inevitável a destruição. Parecia que um ariete tivesse dado seu último golpe para que as forças de Mordor entrassem no Castelo. Nosso cachorro conseguiu se salvar e por pouco não fora atingido, levando-se em consideração que sua casinha ficava  a poucos metros do portão. Ele olhava apavorado de dentro de seu humilde lar, adquirido recentemente , após uma promoção imperdível de casinhas caninas. Alguns pedaços de madeira chegaram a atingir sua morada, mas nada que tivesse abalado seu amor por sua dona. Saiu devagar, pisando em ovos, viu que sua mãe de criação chorava copiosamente e então tentou-lhe dar um pouco de afeto, quieto, do seu jeito, apenas ouvindo.

           Confesso que devemos aprender com os cães. Eu, depois que verifiquei não haverem mortos  e feridos, comecei a pensar no preço de um novo portão, no preço do conserto do carro e esperava que  a notícia não chegasse ao senhorio, que frequentemente fazia visitas surpresas, para saber se sua casa não havia virado um bar, um sanatório ou uma prisão. De certo que ele nunca se atreveu a entrar sem permissão. Não que não tivesse coragem ou fosse abusado o suficiente para isso. É que NEGÃO jamais permitiria a entrada de ninguém que não fosse da família. Alias, todos o temiam, com exceção de nós que os amávamos.
Negão passou a ser o nome social de nosso cachorro. Seu nome de batismo era SONECA, cuja história sempre me comoveu  e sempre me trouxe grande remorso.



II



         Era um verão de Dezembro quando ele apareceu no quintal de casa. Tinha poucos dias de nascido. Sua pele colava no estômago, seus olhos estavam cheios de remela. Sabia que não iria durar muito tempo naquelas condições. Dei-lhe um banho, água  e comida. Fiz uma pequena cama para que ao menos pudesse descansar um pouco em algum lugar limpo. Minha idéia era simples: Ele se alimentava, descansava e depois seguiria sua jornada sozinho, como um viajante que acabará de chegar de uma exaustiva caminhada. Acontece que ele não era um cão adulto. Era um recém nascido. E meu coração não permitiu que o deixasse partir. E assim ele foi ficando, crescendo e se tornando cada dia mais feliz. Uma vez quando sai de casa para ir ao mercado vi que  a mãe biológica dele estava misturada com seus outros filhotinhos no meio de uma lixeira a céu aberto, na favela que morava no início dos anos 2000. Após um ano consegui deixar aquele lugar insalubre, depois de saber que traficantes utilizavam a laje do barraco que morava para fazer posto de observação e rota de fuga. 

       Soneca veio comigo. Me juntei, pouco tempo depois,  e tive uma filha linda. Dessa vez  a casa era ampla, tinha um quintal gramado maravilhoso, fato que fez soneca gastar muita energia caçando gambás, pássaros, lagartos e aprendendo truques, como pular muros altos, parecia um gato. Quando uma fêmea  entrava no cio ele desaparecia por uns três dias  e voltava como quem tivesse voltado de uma batalha - sujo, cansado e faminto. Algum tempo depois vi algumas fêmeas prenhas  e depois percebia que os filhotes só poderiam ser dele. Soneca era um cão vira-lata de pelo negro com algumas mechas marrons no peito, no fuço e na cauda. Não era o tipo de pretendente que a família de uma cadela distinta poderia querer. Era um tipo de cão boêmio, que adorava vagabundear pelas ruas durante  a noite, vivia se metendo em brigas com guildas de cães de rua.  Sempre fora valente e era capaz de encarar o mais forte dos cães. Acontece que com covardia não há valentia que resista. E, normalmente, ele era atacado por todo o grupo de cães e voltava para  a casa severamente machucado. Eu cuidava dele como um pai orgulhoso, porque seu filho não fugiu da luta, mas o repreendia porque não queria ter filho valentão. As cadelas eram apaixonadas por ele, confirmando a teoria que fêmeas gostam de desafios, odeiam a normalidade típica de cães engomadinhos e corretos e admiram a intensidade do desejo oferecido por cães vadios. Isso me trouxe um grande problema ,quando soube pelo vizinho que Soneca havia pulado o muro de dois metros da casa dele  e conseguiu cruzar com sua cadela fêmea, que lógico, estava no cio. Era uma cadela linda, de raça, diria que se fosse humana seria o equivalente  a uma Duquesa Dinamarquesa. Os filhotes nasceram lindos, mestiços, o focinho do pai. Nos mudamos dali pouco tempo depois, certo de que o proprietário da cadela de raça colocaria veneno e mataria ele assim que possível.


          Mas não mudei por conta disso. Era egoísta demais para tal. Consegui o financiamento de um imóvel. Dessa vez conseguiria sair do aluguel e por fim nessa relação altamente intempestiva com meus senhorios. Aquele corretor de imóvel era um belo filho da puta. Alias, difícil o que não o seja. Você precisa dizer que um lugar cheio de mosquitos, bosta de vaca, alcólatras e animais peçonhentos pareça um paraíso.  Quanto aos alcólatras já estava habituado. Enchiam meu saco até eu conseguir ficar o suficientemente bêbado, depois pouco importava o que eles diziam. A foda era ter que andar trinta minutos até chegar a uma porcaria de um ponto de ônibus no meio de uma estrada entre o fim do nada  e o início de porra nenhuma. Quando chovia meus sapatos ficavam da cor da minha pele, que era da mesma cor da calça que vestia e que só se diferenciava da blusa, único lugar que conseguia escapar da lama. Isso se eu tivesse sorte de que algum filho da puta passasse em alta velocidade jogando várias poças em cima de mim. Normalmente na volta do trabalho era agraciado com grandes pulos do Soneca, feliz por eu ter chegado em casa mais cedo e com um saco de ração na mão. Sua felicidade era tanta que gostava de deixar esses momentos marcados com suas patinhas desenhadas na minha camisa branca, que costumava comprar naquelas promoções das lojas americanas. Era uma porcaria de uma camisa que encolhia na segunda lavada. Vinham três camisas dentro de um mesmo plástico. Comprava tamanho G porque sabia que iria se transformar em P em pouco tempo. Ficava esticando a base da camisa para que não chegasse perto do umbigo. Costumavam ser estilizadas, após algum tempo, com alguns buraquinhos feitos por aquelas malditas traças que residiam naquele armário de cor marfim que comprei em uma infindável prestação nas Casas Bahia. Odiava aquele maldito carnê. Ficava olhando para  a cara daquele boneco com chapéu de cangaceiro. Dizia: " filhos da puta, da próxima vez vendam um armário que não seja da cor marfim ou mogno e que não desmonte na próxima mudança.".

        Graças a Deus entrei para o rol dos maus pagadores. Entrava na fila do crediário, ficava esperando aquelas mulheres, que quando conseguiam trepar só faziam papai e mamãe, analisarem minha ficha e, ao final de todo o esplendoroso processo eu ouvia: "sua ficha não foi aprovada". Fingindo se tratar de um grande equivoco, fazia uma expressão de surpresa e dizia: "não pode ser, deve ter havido algum erro. Aqueles ordinários das lojas americanas devem ter descontado o cheque antes do combinado. Só pode ser isso." É claro que para não deixar de ser clichê, como o papai e mamãe de sábado a noite, ela dizia: " Sinto muito senhor". Ela não sentia absolutamente nada. Dizia isso para dezenas de pessoas durante todo o dia. Se ela realmente sentisse alguma coisa me pagaria um boquete no fim do expediente.

       Minha mudança para esse lugar bucólico que o corretor me convenceu a imaginar que era Oz, culminou com o fim de meu primeiro casamento no verão de 2007. Minha filha, que já tinha dois anos  e meio, foi embora com a mãe. Eu fiquei morando por um tempo com Soneca. Alguns meses depois vendi toda a mobília e voltei a morar com meus pais. Infelizmente meus pais não aceitaram que Soneca viesse morar no apartamento deles e  não fui homem suficiente para alugar um barraco e levar meu nobre amigo comigo. Nenhum de meus conhecidos podia ficar com ele. Sabia que  a responsabilidade era minha. Duas vezes por semana dormia na minha casa, mesmo sem nenhuma mobília, havia deixado apenas um colchão na sala. Chegava do trabalho, trocava  a água dele, colocava ração e deixava ele dormir comigo no colchão dentro de casa. Durante esse tempo em que estive bem ausente, Soneca arrumou um novo amigo. Era um senhor que vendia frutas no vilarejo. Chegava do trabalho e ele já não estava mais no quintal. Seu prato de ração estava cheio. Trocava mesmo assim. Sentia falta dele, mas sabia que era ele quem sentia mais falta de mim. Então andava pela vizinhança a sua procura e as vezes o encontrava perambulando pela rua. Não havia um muro que não pudesse pular, era um exímio atleta. Retornei durante todo aquele mês. Duas vezes por semana. Percebi que sua comida e água estavam sempre intactos. Percebi que Soneca não voltaria mais para casa., porque na verdade eu o havia abandonado. O fruteiro era seu novo amigo, era quem cuidava dele agora, pelo menos era o que os matutos me diziam. Mesmo assim continuei indo lá, na esperança de vê-lo novamente. Tempo depois um vizinho me disse que ele havia sido atropelado na estrada e que havia morrido. Jamais acreditei nessa história, porque ele sabia escalar qualquer muro.


Guga Ribeiro

  

Um comentário:

Mário Luiz da Silva disse...

"...Se ela realmente sentisse alguma coisa, me pagaria um boquete ao fim do expediente..."
Soneca teve a quem puxar!!