segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Dicotomia propriamente dita


Dia a dia na cidade,
à procura de um destino
a procura de um trabalho.
Tragado pela insanidade.
Onde o ministério da saúde adverte:
Quem fuma viaja pra terra de Belmonte
e que ser livre é questão de bom senso.
No raspa-raspa da marmita requentada.
No roça-roça do trem lotado.
E a sigla C.V no pé do morro.

Dia a  dia no inferno,
à procura de crack
à procura de um otário.
Tragado pela maldade.
Onde  a polícia adverte:
bandido bom é bandido morto,
e que livre é marca de cigarro.
No clack-clack da escopeta esquentada.
No bate-bate do rabecão lotado.
E a sigla IML no dedão do pé.

Dia a  dia no céu,
à procura de consumo
à procura de nada.
Tragado pelo toboágua.
Onde o ministério da saúde adverte:
Quem fuma charuto cubano viaja pra Europa uma vez por ano,
e que ser livre é questão de dinheiro no bolso.
No tim-tim da taça de champanhe gelada.
No bom dia madame! do carango importado.
E a sigla BR na placa do carro.

Dia a dia na vida,
à procura de uma resposta,
à procura de uma luz.
Tragado pela mediocridade.
Onde o mundo adverte:
Milhares de pessoas morrem de fome por ano,
e que ser livre é desencarnar.
No blém-blém do sino da igreja defumada
no chora-chora do dia do enterro
E a palavra aqui jaz Esperança da Silva na catacumba.


Gustavo R. Alves




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